Confiança, emprego e investimento

Expectativas melhoram entre empresários e consumidores, mas ainda desigualmente

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 03h00

Com expansão de 0,5% em junho, o emprego industrial completou 11 meses de crescimento e alcançou o maior patamar desde agosto de 2016, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Além de avançar nas contratações, o setor industrial, exibindo o maior índice de confiança do setor empresarial, é o mais propenso a abrir vagas, de acordo com a Síntese das Sondagens de Julho da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A sociedade se move e sinais de esperança tornam menos escuro um cenário ainda marcado por alto desemprego, inflação disparada, vacinação atrasada e governo perdido em confusões políticas e financeiras – agora com ameaça de novo atraso no pagamento aos credores de precatórios.

Apesar das boas notícias, dificuldades causadas pela pandemia ainda atrapalham a recuperação da indústria. O faturamento oscila, faltam componentes eletrônicos e outros insumos e os custos de produção têm subido. Escassez e preços de insumos compõem o principal problema indicado por 63,8% dos consultados em pesquisa recente da CNI. De maio para junho o crescimento do produto industrial foi nulo, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além do abastecimento insuficiente e caro, as empresas têm de enfrentar as barreiras de um mercado ainda sujeito a restrições e às oscilações causadas pelo empobrecimento e pela insegurança das famílias.

Mesmo com os avanços a partir de maio de 2020, quando começou a reação da indústria e do varejo, as novidades mais promissoras aparecem nas sondagens de confiança de empresários e consumidores. Pela primeira vez desde outubro de 2013, o índice de confiança empresarial (ICE) superou a linha de 100 pontos (101,9), entrando no território positivo, segundo a FGV. No caso dos consumidores, o indicador, embora em alta, permaneceu abaixo da fronteira, em 82,2 pontos. Os mais confiantes, de acordo com a pesquisa, são os empresários industriais, com a marca de 108,4 pontos. As outras marcas ficaram próximas da fronteira: 101 no comércio, 98 nos serviços e 95,7 na construção.

Os consumidores mostraram-se mais animados quanto ao futuro. Seu índice de expectativa subiu 2,5 pontos e chegou a 90,8, mas a avaliação da condição presente diminuiu 0,7 ponto e recuou para 70,9. Além disso, chegou ao recorde de 18 pontos a distância entre as expectativas indicadas por pessoas com diferentes níveis de renda. Nas duas faixas mais baixas o índice médio de confiança ficou em 72,4 pontos, sem variação. Nas duas superiores, a média chegou a 90,4 pontos. A diferença é a maior da série iniciada em 2005.

O contraste parece facilmente compreensível quando se consideram as condições e perspectivas das pessoas com diferentes condições de educação e de remuneração. As oportunidades de emprego têm sido bem menores para as pessoas com menor escolaridade, mais sujeitas à desocupação, à informalidade, à insegurança econômica e ao aperto orçamentário. A desocupação, a subocupação e a informalidade têm sido mostradas com dolorosa clareza pelas pesquisas do IBGE, atacadas de forma injustificada, há poucos dias, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

A melhora das expectativas ainda se reflete de forma limitada no investimento produtivo. A intenção de investir tem aumentado no setor industrial, segundo a CNI, mas o aumento efetivo das compras de máquinas e equipamentos ainda parece modesto. Em julho, a utilização da capacidade instalada chegou a 82,9%, o maior nível desde abril de 2013, antes da última grande crise (2015-2016) anterior à pandemia. O número impressiona, mas sem dúvida se explica em boa parte pela pouca expansão da capacidade produtiva nos últimos oito a dez anos. Essa hipótese é reforçada pelo grande recuo da indústria de bens de capital. Em junho, segundo o IBGE, a produção desse ramo industrial foi 25,4% inferior àquela registrada em setembro de 2013, quando se atingiu o pico da série histórica. As demonstrações de confiança serão muito mais expressivas quando esse investimento for retomado com grande disposição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.