Confiança na ciência e estômago forte

Não há qualquer razão para crer que o interesse da Anvisa ao aprovar a vacinação infantil seja outro que não aumentar a proteção dos brasileiros

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 03h00

Na volta ao Palácio do Planalto, após um período de dolce far niente no litoral de Santa Catarina e uma parada em um hospital de São Paulo para tratar de problemas no intestino, o presidente Jair Bolsonaro indicou que os brasileiros precisarão ter estômago forte para suportar mais um ano de suas mentiras e distorções sobre a gravidade da pandemia de covid-19, não bastasse o tanto de dor e angústia que a peste já causou.

No mesmo dia em que o Ministério da Saúde, finalmente, anunciou as regras para a vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra o coronavírus, Bolsonaro voltou a atacar a imunização infantil e, como se isso fosse pouco, insinuou que interesses escusos de técnicos da Anvisa poderiam estar por trás da aprovação da vacina da Pfizer para aquele público. “Qual é o interesse da Anvisa? Qual é o interesse daquelas pessoas taradas por vacinas?”, questionou Bolsonaro em entrevista à TV Nova Nordeste, de Pernambuco.

O que Bolsonaro fez foi gravíssimo. Não há o mais tênue indício de que o interesse dos técnicos da Anvisa ao aprovar a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos – a mesma vacina que já é aplicada neste público em diversos países – seja outro que não aumentar o nível de proteção dos brasileiros contra um vírus que já matou 620 mil pessoas no País. Um presidente da República não pode lançar aleivosias no ar como se não tivesse responsabilidade por tudo o que diz, faz ou escreve. Se Bolsonaro o fez, é porque se sente absolutamente confortável por não ter sido contido até agora em sua espiral de barbaridades na condução do País durante a crise sanitária. Além dele, chegará o dia em que todos os que deixaram de cumprir seus deveres constitucionais também haverão de prestar contas à Justiça.

Na mesma entrevista, o presidente mentiu despudoradamente à Nação ao dizer que “algum moleque que morreu de covid tinha outra comorbidade qualquer”. Bolsonaro não tem dados para confirmar a afirmação. Se tem, não os apresentou. Afirmando “não conhecer” nenhuma criança que tenha morrido em decorrência da covid-19 no País, Bolsonaro também revelou ignorância, para dizer o mínimo, sobre dados do próprio Ministério da Saúde. De acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe), 560 crianças entre 5 e 11 anos morreram por covid-19 desde o início da pandemia. A doença foi a maior causa de morte infantil no País depois dos acidentes de trânsito.

Para reforçar, com base em evidências, a gravidade da covid-19 para as crianças, o pediatra Marco Aurélio Sáfadi, consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e representante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) na audiência pública convocada pelo Ministério da Saúde sobre a vacinação infantil, demonstrou que a covid-19 foi a doença que mais matou crianças no Brasil entre todas as doenças para as quais há vacinas (sarampo, meningite, tuberculose, rotavírus, entre outras). A SBP publicou nota em que defende enfaticamente a vacinação de crianças contra o coronavírus, reforçando para pais e responsáveis que a vacina aprovada pela Anvisa é segura e eficaz.

À medida que a vacinação dos adultos avança, o público infantil passa a ficar ainda mais vulnerável à contaminação pelo coronavírus. A razão é evidente: ainda não há barreira imunológica nas crianças que impeça a circulação do patógeno, o que reforça a necessidade de vacinação. Ademais, ainda que nas crianças as manifestações da doença tendam a ser mais brandas, isso não significa que o risco de efeitos mais severos esteja totalmente descartado. Também é importante reforçar que, se a esmagadora maioria das crianças não desenvolve a forma grave da covid-19, caso não sejam vacinadas, elas podem transmitir o vírus para pessoas mais velhas, e estas sim apresentarem quadros mais críticos.

Pais e responsáveis devem confiar no histórico de segurança e sucesso dos programas de vacinação do País, uma referência internacional. Quanto mais brasileiros estiverem vacinados contra a covid-19, de todas as faixas etárias, mais próximo o País estará do fim deste pesadelo.

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