Confiança no meio da névoa

Executivos se mostram mais confiantes, mas menos seguros do que antes da covid-19

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 03h00

Com a reação dos negócios, empresários de todos os setores se mostram mais animados, mas continuam menos confiantes do que estavam em fevereiro, segundo pesquisas divulgadas nos últimos dias. Sinais de maior atividade acumulam-se na indústria, no comércio e nos serviços, depois da queda histórica de abril. Máquinas e equipamentos voltam a funcionar mais intensamente, construtoras contratam pessoal e cresce o movimento no varejo, com as famílias voltando às lojas. Apesar da retomada, os indicadores de confiança permanecem abaixo dos níveis anteriores ao coronavírus e longe dos padrões do ano passado, de acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A movimentação dos negócios em todos os setores e a melhora das expectativas empresariais têm-se refletido em projeções econômicas menos sombrias. A contração do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 deve ficar em torno de 5%, de acordo com as últimas estimativas. Há um mês os cálculos do mercado apontavam recuo superior a 6%. Mas o governo deveria dar mais atenção à insegurança ainda mostrada pelas sondagens setoriais. A indicação mais clara de um roteiro confiável para a recuperação poderia reforçar a melhora de humor, ainda um tanto tímida, observada até agora.

Algumas das melhores notícias têm surgido no setor industrial. A confiança já se espalhou por todos os segmentos industriais, informou a CNI. Nos 30 ramos cobertos pela pesquisa mensal, o índice de agosto superou a linha de 50 pontos, fronteira entre os territórios negativo e positivo. O indicador geral chegou a 57 pontos, o mais alto desde abril (34,5), mas sem atingir os de março (60,3) e de fevereiro (64,7).

A melhora de humor na indústria é mostrada também pela FGV. A demanda continua fraca, disseram os consultados, mas a avaliação das condições presentes melhorou, assim como a expectativa de emprego para os seis meses seguintes. O uso da capacidade instalada subiu em um mês de 72,3% para 75,3% e voltou ao patamar de março, mas ainda ficou 0,9% abaixo do nível de fevereiro. O indicador mais amplo chegou a 98,7 pontos. Em fevereiro estava em 101,4, o ponto mais alto em um ano. Nessa pesquisa o nível 100 é a fronteira entre os territórios negativo e positivo.

Também no comércio, na construção e nos serviços a confiança ainda terá de crescer para voltar aos níveis pré-pandemia, segundo os levantamentos da FGV. Em agosto o mais alto patamar, de 96,6 pontos, foi alcançado pelo comércio. O setor recobrou, até agora, 92% da confiança perdida a partir dos primeiros efeitos da pandemia. O aumento resultou principalmente da percepção mais positiva das condições atuais. As expectativas também têm melhorado, mas ainda há muita insegurança.

A recuperação tem sido desigual entre os vários segmentos, comentou o coordenador da sondagem do comércio, Rodolpho Tobler. “Os consumidores estão se mostrando cautelosos”, acrescentou, “e a incerteza se mantém elevada.” Em fevereiro o indicador estava em 99,8 pontos.

Na construção a confiança chegou a 87,8 pontos, muito perto do nível inicial da crise (90,8 em março). Mas durante a pandemia muitos negócios foram adiados ou cancelados. Para 35,6% das empresas os negócios continuam fracos, assinalou a coordenadora da pesquisa, Ana Maria Castelo. Em fevereiro essa era uma queixa de 29%. Apesar da insegurança, têm surgido sinais importantes de retomada, como a contratação líquida de 41.986 trabalhadores formais em julho, informada pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Um dos mais afetados pela crise, o setor de serviços vem reagindo muito devagar. Só entrou claramente em recuperação em junho, um mês depois da indústria e do comércio. O menor dinamismo reflete-se na recuperação da confiança, mais lenta que nos demais setores. Segundo a FGV, o indicador subiu 6 pontos em agosto e chegou a 85, ainda bem abaixo do nível de fevereiro (94,4). Se a indústria se acelerar, os serviços provavelmente serão puxados.

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