Consenso nacional

É consensual que todos os esforços da Nação sejam direcionados à proteção da vida

Notas & informações, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2020 | 03h00

A despeito das vontades do presidente da República, que segue cada vez mais aferrado a suas convicções sobre a melhor maneira de o País atravessar a pandemia, frontalmente contrárias às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, a sociedade mostra-se engajada no enfrentamento técnico, e sobretudo solidário, da maior ameaça sanitária dos últimos 100 anos. Os impactos da crise na vida de cada cidadão são variáveis, sendo particularmente severos para as camadas mais vulneráveis da população – os trabalhadores informais, desempregados e moradores de rua, entre outros –, mas todos são atingidos em alguma medida. Neste contexto, é perceptível um consenso nacional sobre a necessidade de superação de diferenças em todos os níveis para que todos os esforços da Nação sejam direcionados à proteção da vida em primeiro lugar.

A expressiva adesão voluntária ao chamado isolamento social – é interessante destacar que o Brasil, ao contrário de alguns países, ainda não decretou lockdown – é sinal eloquente de que, na medida de suas possibilidades, os cidadãos estão dispostos a contribuir com seus esforços individuais para que a travessia desta grave crise seja menos penosa do que essencialmente seria para a coletividade. Em prol do bem comum, a reclusão tem sido respeitada por grande parte da população, mesmo ao custo de importantes alterações sociais que vão desde a separação forçada de familiares e amigos até a mudança repentina dos ritos funerários.

Escolas permanecem fechadas. Comerciantes e prestadores de serviços, com boa dose de criatividade, tentam como podem se adaptar à nova realidade para continuar atendendo seus clientes. Empresas adotaram o home office para todos os funcionários cuja presença física em suas instalações não seja indispensável. “É o momento de sobreviver à crise. E aqui acho importante que haja esse sentimento de solidariedade, de que estamos na mesma trincheira. É o que tenho visto acontecer”, disse Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, em entrevista ao Estado. Não é uma voz isolada.

Os resultados positivos dessa benfazeja união nacional em torno de uma causa comum já podem ser mensurados. Um estudo feito por José Fernando Diniz Chubaci, professor da faculdade de Física da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Ministério da Saúde, revelou que o isolamento social tem ajudado a “achatar a curva” de disseminação do novo coronavírus em São Paulo. Em que pese a subnotificação de casos, o estudo indica que o Estado poderia estar enfrentando situação muito mais crítica não fossem as medidas restritivas determinadas a tempo pelo governo estadual e a adesão da maioria dos paulistas a elas. São Paulo é o Estado mais afetado pela covid-19. É razoável inferir que o achado do professor Chubaci também seja aplicável a outros entes federativos.

Os brasileiros dão mostras de que compreenderam que “esta é a crise de saúde global que definirá nosso tempo”, como bem asseverou o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Advém desta compreensão uma miríade de ações solidárias que vão além do compromisso de manter vazias ruas e avenidas dos grandes centros urbanos do País. Com a pandemia parece ter aflorado um espírito de cooperação. Organizações assistenciais registram significativo aumento do número de cidadãos dispostos a ajudá-las. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, por exemplo, conseguiu ampliar o número de leitos e vagas em UTI para atender pacientes com covid-19 graças às doações que tem recebido. “Tem muita gente grande colaborando, mas o principal é que a população está participando intensamente (do enfrentamento da crise), colaborando, de forma extremamente solidária, dentro de sua capacidade”, disse Antonio Penteado Mendonça, provedor da instituição.

São incertos o desfecho da crise e as transformações que ela imprimirá nas pessoas, empresas e instituições. No entanto, o País será melhor se o legado desses meses difíceis for o resgate de um senso de coletividade que andava esquecido.

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