Consumidor na encruzilhada

Crescimento depende do consumidor, mas seu comportamento é por enquanto incerto.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 03h00

O vigor da economia em 2021 vai depender do consumo, principal motor da reativação em 2020, mas falta verificar se o consumidor terá dinheiro, crédito e segurança para ir às compras com disposição. É preciso levar em conta o fim do auxílio emergencial e as condições de emprego ainda precárias, apesar de alguma melhora no fim do ano. Nada permite, por enquanto, previsões muito otimistas. O brasileiro médio ainda aparece muito cauteloso nas últimas sondagens da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Além disso, os últimos dados oficiais sobre as vendas do comércio varejista mostram a interrupção, em novembro, de uma série de altas.

Segundo a FGV, a confiança do consumidor diminuiu 3,2 pontos em dezembro e caiu para 78,5, bem abaixo da fronteira com o otimismo, situada em 100 pontos. Houve piora na avaliação das condições presentes e também na percepção do cenário nos meses seguintes. O Índice de Situação Atual caiu 2,1 pontos, para 69,7. O Índice de Expectativas passou a 85,6 pontos, com recuo de 3,7.

No fim do ano a confiança do consumidor e a do empresário se descolaram amplamente. A confiança empresarial também se enfraqueceu, mas o recuo, de apenas 0,4 ponto, levou o índice para 95,2. Esses indicadores variam de zero a 200 e a metade superior é o território do otimismo. Se as famílias forem às compras com a cautela indicada pelas últimas sondagens, seu humor poderá contaminar o do empresariado, mas isso se verá dentro de alguns meses.

Mais animadora, à primeira vista, é a última pesquisa da CNC sobre a disposição das famílias. Em janeiro a intenção de consumo indicada na sondagem atingiu 73,6 pontos e superou por 0,7% o nível de dezembro. Foi a quinta alta mensal consecutiva. Mas foi o pior resultado para um mês de janeiro desde o começo da série, em 2010. Além disso, houve recuo de 24,2% em relação ao início de 2020.

Os dados mais positivos da pesquisa da CNC referem-se à renda, no nível mais alto desde junho, e à perspectiva profissional, no mais alto patamar desde abril. Mas também esse indicador, de 88,6 pontos, está abaixo da fronteira da satisfação.

Ainda sem roteiro claramente definido para este ano, o governo continua em busca de políticas para garantir a continuidade da recuperação econômica. Já se discutiram várias formas de ajuda ao consumidor, principalmente àqueles de menor capacidade financeira. A solução encontrada há poucos dias inclui a antecipação do 13.º salário de aposentados e pensionistas e do abono salarial. Mas essas medidas pouco devem afetar a disposição dos consumidores, avaliam os economistas Viviane Seda Bittencourt e Rodolpho Tobler, da Superintendência Adjunta de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), vinculado à FGV.

Dificilmente uma única medida mudará o comportamento das famílias neste início de ano, comentou Viviane Bittencourt. É necessário, segundo ela, um conjunto de sinalizações positivas para aumentar a segurança dos consumidores. “A expectativa de uma vacinação no início do primeiro trimestre, que era positiva no final do ano passado, foi contaminada pela falta de um calendário claro. E o aumento de casos e vítimas de covid-19 amplia a incerteza no curto prazo.” Segundo ela, outros fatores, como o anúncio do fechamento das fábricas da Ford no Brasil, podem aumentar a sensação de insegurança. A insegurança, observou Tobler, só será superada com uma reação mais forte do mercado de trabalho.

Os últimos dados oficiais mostram o consumo perdendo força no fim do ano. Em novembro, as vendas no varejo restrito foram 0,1% menores que em outubro, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Renda mais apertada, preços em alta e maior insegurança explicam boa parte do quadro, como sugerem os números de hiper e supermercados, com volumes 2,3% inferiores aos de outubro e 0,4% menores que os de um ano antes. Metade de janeiro passou e o governo precisa definir mais claramente seu roteiro.

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