Continua o aperto contra a inflação

O BC promete novos aumentos dos juros básicos e não há indicação de quando o arrocho do crédito chegará ao limite

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2022 | 03h00

Sem meios para frear os preços internacionais, afetados pela guerra de Vladimir Putin e pelos cortes de produção chinesa no combate à covid, o Banco Central (BC) tenta conter a inflação brasileira elevando os juros ao nível mais alto em cinco anos. Os benefícios poderão ser modestos em 2022 e mais sensíveis em 2023, mas os custos para o crescimento econômico tendem a ser imediatos. Não há, no entanto, alternativas visíveis neste momento para o combate ao surto inflacionário, já intenso antes da invasão da Ucrânia.

Na décima alta consecutiva, anunciada na quarta-feira, a taxa básica subiu 1 ponto e chegou a 12,75% ao ano, mas ficará aí por pouco tempo. Um novo aumento em junho já foi apontado como “provável” pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, em nota divulgada após a última reunião. No próximo ajuste, a taxa alcançará 13,25%, segundo a aposta dominante no mercado, e há quem preveja 13,50%. Mas ninguém tem base para dizer se o aperto do crédito vai parar nesse ponto ou continuar aumentando.

Não há sinal de trégua por parte do BC. O aperto poderá ficar mais suave, mas a intenção declarada é continuar “avançando significativamente em território ainda mais contracionista”, segundo a nota. A estratégia será mantida, promete o Copom, até se alcançarem dois objetivos, a reversão do impulso inflacionário e a “ancoragem das expectativas” em torno das metas oficiais. Notas anteriores citaram o compromisso com esses objetivos.

Em 2022, a inflação, estimada em 7,3% pelo BC e mais perto de 8% pelo mercado, ainda passará bem acima do teto da meta, fixado em 5%. No ano passado a meta era de 5,25% e os preços aumentaram 10,03%. Em 2023, o número final, estimado em 3,4% no informe do Copom, poderá ficar bem perto do centro do alvo, de 3%.

Também na quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) adicionou 0,5 ponto porcentual a seus juros básicos, elevando-os para a faixa de 0,75% a 1% ao ano. A inflação americana atingiu 8,5% nos 12 meses até março, a maior taxa desde 1981. Novos aumentos de juros poderão ocorrer, segundo o presidente do Fed, Jerome Powell, mas ele descartou variações de 0,75 ponto.

Essa ressalva diminuiu tensões no mercado, mas, ainda assim, o aperto monetário nos Estados Unidos limita o espaço de ação do BC brasileiro. Com taxas mais altas na maior potência econômica mundial, qualquer afrouxamento no Brasil poderá resultar em indesejável saída de dólares, com mais efeitos inflacionários no País.

Incapaz de frear a inflação internacional, o Copom também é impotente em face de alguns importantes fatores inflacionários internos, como os desmandos eleitoreiros do presidente Jair Bolsonaro e a gastança promovida ou favorecida por parlamentares. Parte desses problemas é visível nas pressões por aumentos salariais de várias categorias do funcionalismo, desatadas pelo presidente ao prometer reajustes a grupos por ele selecionados. Essas pressões, até com greves, são componentes das incertezas e riscos apontados pelo BC.

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