Cooperação não é utopia

É possível a sociedade chegar a um consenso para enfrentamento de seus problemas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 03h00

Partidos políticos se formam para dar visibilidade e voz a parcelas da sociedade em busca de seus interesses. Quanto mais poder agregam, maior é a possibilidade de que consigam atender a esses interesses. Logo, é natural que a busca pelo poder seja o objetivo primário dos partidos. Mas nenhuma democracia sobrevive se as elites políticas transformam essa luta em guerra de aniquilação, em que as ideias e as aspirações dos adversários são liminarmente desqualificadas e seus proponentes são tratados como inimigos do país.

Se democracia presume o livre confronto de ideias e a institucionalização do debate político com vista à administração do Estado em seus diversos aspectos, esse comportamento belicoso nada tem de democrático. Discordar é parte indispensável do processo; incitar os cidadãos a hostilizar quem discorda, como uma parte das elites políticas do Brasil tem feito desde a redemocratização, é próprio dos que têm vocação autoritária.

Esse comportamento criou no País a sensação generalizada de que a sociedade está “polarizada”, isto é, dividida entre visões de mundo absolutamente inconciliáveis. O fenômeno parece ainda mais acentuado pelo barulho reducionista das redes sociais. Fora das redes, contudo, o mundo é bem menos polarizado e muito mais complexo. Temas que apaixonam os extremistas do Twitter certamente não frequentam a lista de preocupações dos cidadãos comuns, ocupados demais em ganhar a vida. Há na sociedade muito mais convergência do que os fanáticos gostariam de admitir.

Nos assuntos mais importantes para o País, é possível alcançar consenso razoavelmente sólido, como aconteceu no esforço para debelar a inflação, nas diversas reformas constitucionais, no reconhecimento do direito de minorias historicamente marginalizadas, na tomada de consciência ambiental e, como vemos agora, na defesa da democracia contra arroubos autoritários.

Assim, seria possível alcançar um consenso nacional sobre a melhor forma de combater a pandemia de covid-19 se as elites políticas representadas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, estivessem interessadas em construí-lo. Mas Bolsonaro, assim como os petistas a seu tempo, nunca procurou ou facilitou o consenso, pois isso presume concessões e sacrifícios, o que é uma ofensa para quem se julga instrumento da Providência.

São essas elites políticas, portanto, as responsáveis por incitar uma polarização que não encontra ressonância real senão entre os extremistas – que, pelo barulho que fazem, acabam por ganhar visibilidade e dar a impressão de que falam por muitos. Resultado: perde-se tempo e energia com o rancor dessa vanguarda autoritária, enquanto os profundos problemas nacionais, cuja resolução é reclamada pelos cidadãos comuns, ficam em segundo plano.

Mas cooperação não é utopia, ao contrário do que os radicais querem fazer parecer. De fato, há muito ressentimento na sociedade, em especial em camadas da classe média que se sentem ignoradas pelo establishment político e menosprezadas pela intelligentsia nacional, e isso alimenta o rancor que ajuda a explicar a descrença na democracia. Nesse sentido, a eleição de Jair Bolsonaro pode ser lida como uma espécie de vingança dos ressentidos.

Mesmo esses ressentidos, contudo, podem ser convencidos a aceitar o diálogo democrático; para isso, é preciso que as elites políticas ajuizadas compreendam o que levou 57 milhões de brasileiros a votar em Bolsonaro e que muitos deles ainda o apoiem, apesar de tudo.

É lícito especular que grande parte desses eleitores, massacrados pelo subemprego e condenados à mediocridade, escolheu Bolsonaro porque queria expressar sua insatisfação com a democracia, incapaz, a seu ver, de incluí-los entre os que merecem opinar sobre o que vem a ser o “bem comum”.

Não se pode tomar os celerados bolsonaristas como padrão desse contingente de cidadãos; a maioria provavelmente apoia a democracia e, portanto, deve ser ouvida e levada a sério, se o que se pretende é romper o ciclo de estranhamento que ameaça inviabilizar o futuro do País.

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