Copom indica o fim de um ciclo

O quinto corte consecutivo da Selic pode representar o fim de um ciclo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 03h00

O quinto corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, decidido por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) na reunião encerrada na quarta-feira passada – embora menor, de 0,25 ponto porcentual (os anteriores foram de 0,5 ponto) –, era previsto pelos analistas das principais instituições financeiras, mas pode representar o fim de um ciclo. Em nota divulgada no encerramento de sua reunião, com texto em geral cauteloso a respeito da evolução das economias brasileira e mundial, o Copom foi, porém, claro ao dizer que “vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”.

Há quem interprete essa afirmação apenas como uma pausa no alívio da política monetária, o que significa que, se as condições conjunturais favorecerem, nova redução poderá ser decidida daqui a algum tempo. Outros veem como encerrado o período de queda da Selic, agora fixada em 4,25% ao ano, no menor nível da série iniciada em junho de 1996 (em julho do ano passado, no início do ciclo de baixa, estava em 6,5% ao ano).

Além de claro a respeito da “interrupção” do ciclo, o comunicado do Copom tem partes que merecem alguma reflexão. A respeito da atividade econômica, por exemplo, afirma que os dados conhecidos desde sua reunião anterior “indicam a continuidade do processo de recuperação gradual da economia brasileira”. A expressão “recuperação gradual” contém algum grau de imprecisão, pois pode sugerir tanto uma economia cuja expansão se acelera como uma que só aos poucos vem ganhando algum vigor.

Na verdade, porém, dados recentes, como os da atividade industrial, são negativos, mostrando a dificuldade de alguns importantes segmentos da economia em adquirir uma tração firme de crescimento. Os dados gerais, embora indiquem alguma expansão, mostram uma recuperação ainda muito lenta.

Na avaliação dos cenários para a inflação, o Copom é cauteloso e observa que a flexibilização monetária atua com defasagem sobre a economia e pode “elevar a trajetória da inflação” no horizonte utilizado para balizar suas decisões. O risco se acentua na medida em que a potência da política monetária aumenta em decorrência da maior fluidez na intermediação financeira e no mercado de crédito e de capitais. Em outras palavras, quanto mais eficaz o funcionamento do mercado, maior o impacto das decisões de política monetária.

Ao contrário do que têm marcado as análises internacionais, a epidemia de coronavírus – originária da China e apontada com alto poder para afetar a evolução do comércio e da atividade econômica mundiais – não consta explicitamente da nota do Copom. Embora observe que a “deterioração do cenário externo” pode se tornar um fator de risco para a trajetória da inflação, o Copom refere-se apenas ao “recente aumento de incerteza” no quadro internacional.

Mas os membros do Copom parecem tranquilos no momento com o cenário mundial, pois a nota diz que as políticas monetárias das principais economias ainda produzem um ambiente favorável para os países emergentes, entre eles o Brasil. Talvez essa avaliação tenha de ser revista nas próximas notas da autoridade monetária sobre a situação internacional.

O Copom observou que o quadro econômico “recomenda cautela” e que suas próximas decisões “continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação”.

Quanto às reformas, o Copom reafirma que elas são essenciais para a preservação da política monetária e para a recuperação da economia”. Mostra a importância de sua continuidade e avalia que o processo “tem avançado”. Houve algum avanço no ano passado, de fato, mas a continuidade do avanço depende de iniciativas firmes do governo do presidente Jair Bolsonaro em favor das reformas. Essas iniciativas até agora não foram observadas.

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