Coronavírus, a China e o mundo

Apesar da reação vigorosa, o coronavírus já afeta a economia chinesa – e mundial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 03h00

O Banco Popular da China (PBoC, o banco central do país) atribuiu a “fatores irracionais”, que incluíram um forte movimento de vendas provocado por um “efeito manada”, a queda de 7,72% do principal índice da bolsa de valores de Xangai na segunda-feira passada, depois do longo feriado do ano novo lunar chinês. O governo de Pequim, de sua parte, acusou o governo dos Estados Unidos de “espalhar pânico” por ter evacuado funcionários americanos de sua representação diplomática em Wuhan – centro da epidemia de coronavírus, que já matou mais de 300 pessoas e chegou a duas dezenas de países – e proibido a entrada de turistas chineses no país.

Há algum exagero nesse tipo de reação. Para tentar contê-lo, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que, apesar da declaração de emergência global por conta do coronavírus, não há razão para que os países tomem medidas “desnecessárias” que interfiram no fluxo internacional de pessoas e de bens. As decisões dos governos, recomendou, devem ser “consistentes e baseadas em evidências”.

Há evidências, e se acumulam a cada dia, de que a economia chinesa, em primeiro lugar, e a mundial, logo em seguida, sofrerão o impacto do avanço do coronavírus. Por ter no mercado chinês o principal destino de suas exportações, o Brasil será, de algum modo afetado por tudo o que acontecer na China.

A rápida decisão do banco central chinês de cortar as taxas de juros de operações de recompra reversa e ampliar a liquidez do sistema bancário por meio da injeção de 1,2 trilhão de yuans (o equivalente a US$ 173 bilhões) mostra que as autoridades de Pequim tentam, com os instrumentos disponíveis, conter o quanto antes o impacto do coronavírus sobre a economia e sobre a vida dos chineses. A construção, em dez dias, de um hospital com mil leitos em Wuhan para atender os infectados pelo vírus é, além da demonstração da capacidade operacional do governo chinês, a tentativa prática mais evidente das autoridades de tentar acalmar uma população que praticamente sumiu das ruas e das lojas.

Desde 31 de dezembro, quanto foi emitido o alerta sobre o vírus, as famílias que moram nas cidades afetadas designam apenas um de seus membros para fazer as compras indispensáveis. Parte das empresas que transformaram a China na maior potência exportadora do planeta interrompeu temporariamente suas atividades. Ainda não se sabe o tamanho da conta dessa paralisação para o PIB chinês. Mas uma parte da economia do país está sendo corroída. As autoridades chinesas estão revendo para baixo suas projeções para o crescimento do PIB neste ano – estima-se que, em 2019, o PIB chinês cresceu 6,1%, o pior resultado em 29 anos. Empresas privadas de consultoria já calculam uma expansão pouco superior a 5% em 2020.

Além da notória queda do consumo nas cidades afetadas, outros sinais vão se somando para conformar um quadro de desaceleração da atividade econômica na China. Há indicações de que a demanda por petróleo recuou cerca de 20% nos primeiros dias do ano. A maior refinaria da Ásia, a estatal Sinopec, está reduzindo suas operações em 12% neste mês, segundo a agência Reuters. Em janeiro, índices de atividade da indústria atingiram seu ponto mais baixo em cinco meses. As novas encomendas e a produção crescem bem mais devagar do que nos meses anteriores.

Para complicar, no domingo passado, as autoridades chinesas informaram a detecção de um surto de gripe aviária H5N1 na província de Hunan. Ações da maior exportadora brasileira de frangos tiveram alta imediata e expressiva.

Impactos mais duradouros e mais amplos da epidemia de coronavírus poderão ser sentidos pelo comércio global. A Organização Mundial do Comércio (OMC) poderá rever para baixo suas estimativas para 2020, disse seu diretor-geral, Roberto Azevêdo. Isso será ruim para a economia brasileira.

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