Correndo atrás do mundo

OCDE mostra que políticas de saúde e de economia devem ir juntas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 03h00

Três grandes perigos para a economia brasileira – inflação em alta, maior contágio do coronavírus e incertezas sobre gestão das contas públicas – são apontados no panorama econômico da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Apesar da insegurança, a atividade se recupera no Brasil, depois do recuo de 4,1% em 2020, e o Produto Interno Bruto (PIB) poderá crescer 3,7% neste ano e 2,5% no próximo. Mas o País continuará com desempenho inferior à média do mundo e correndo atrás de muitos países emergentes. Pelos novos cálculos, o Produto Bruto Global deverá avançar 5,8% em 2021 e 4,4% em 2022. O crescimento agora esperado para a economia mundial, neste ano, é 1,6 ponto maior que o estimado em dezembro.

Novos surtos de coronavírus, assim como a importância das políticas de saúde, são mencionados desde as primeiras linhas do panorama geral. Ações prontas prepararam o caminho para a recuperação da saúde e da economia, registra o relatório. Governos ministraram cerca de 2 bilhões de doses de vacina e “a capacidade global para testar, produzir e aplicar vacinas melhorou rapidamente”.

Como em outros relatórios de instituições multilaterais, as políticas sanitária e econômica são tratadas como complementares neste novo relatório da OCDE. A insuficiência de vacinas em países emergentes e pobres é tratada como grave preocupação. Enquanto a vasta maioria da população mundial permanecer sem imunização, todos continuarão vulneráveis ao surgimento de novas variantes, segundo o economista-chefe da OCDE, Laurence Boone.

Ao contrário do presidente brasileiro, Boone, assim como outros economistas em postos de alta responsabilidade, aponta as políticas de reativação econômica e de proteção da saúde como convergentes. Mais que isso: se houver recrudescimento da pandemia, os pobres serão os mais prejudicados por interrupções da atividade e as desigualdades voltarão a aumentar.

Mas a economia mundial avança, deve crescer mais do que se previa em dezembro e, ao lado dessa boa novidade, uma ressalva se destaca. Não se prevê, por enquanto, um retorno à trajetória de crescimento projetada antes do desastre de 2020. De toda forma, algumas prescrições são claras. Será conveniente manter os estímulos fiscais à retomada, assim como políticas monetárias favoráveis à expansão do crédito. A tarefa será mais complicada nos países com menor ou nenhuma folga nas contas públicas – caso evidente do Brasil. Remanejar gastos e rever prioridades e regras orçamentárias poderá ser uma solução.

O repique inflacionário, em parte associado ao encarecimento de alimentos e minérios e ao desarranjo de algumas cadeias produtivas, afeta boa parte do mundo. No Brasil, a inflação mais alta dificulta a combinação das políticas fiscal e monetária. O aumento de juros, como resposta à alta de preços, em algum momento reduzirá o apoio à retomada. Ao mesmo tempo, o governo, limitado pelo aperto de suas contas e pela dívida pública aproximando-se de 90% do PIB, terá pouco espaço para ações de suporte à atividade.

“Nesse contexto, medidas para controlar rapidamente a epidemia têm importância-chave”, segundo o relatório. O caminho sugerido é tornar mais rápido o processo de vacinação e ao mesmo tempo retraçar mais amplamente os contatos. O sentido dessas sugestões é claro: ações mais eficientes contra a pandemia poderão reduzir o risco de novos surtos e de novas perdas econômicas, conferindo maior eficácia aos estímulos.

Para o segundo semestre é prevista uma forte reação econômica, puxada pelo consumo e pelas exportações, mas isto pressupõe “uma vacinação mais eficiente e maior controle da difusão do vírus”. A incerteza fiscal será um risco importante. Para criar mais segurança, o governo deveria claramente limitar o prazo e o alcance dos gastos extrateto, restringindo-os à ação contra a crise da covid-19. Credibilidade será essencial para atrair recursos e evitar maior depreciação do real, lembram os autores do relatório, ecoando uma verdade reafirmada todos os dias no mercado.

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