Corrupção na polícia

São os policiais corruptos que usam em proveito próprio as armas, o treinamento e a autoridade que a sociedade lhes dá para protegê-la

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2018 | 03h00

Policiais corruptos constituem um problema particularmente grave. Afinal, são pessoas que usam em proveito próprio as armas, o treinamento e a autoridade que a sociedade lhes dá para protegê-la. A situação fica pior quando atinge as dimensões do caso que acaba de levar à prisão 54 policiais do 22.º Batalhão da Polícia Militar (PM) de São Paulo, na zona sul da capital. O crime se enquistou profundamente no interior de uma unidade policial encarregada de manter a lei e a ordem. Por isso, as autoridades devem tratar esse caso com cuidado especial, para que os culpados sejam exemplarmente punidos e se evite que o mal se espalhe ainda mais.

Os PMs presos exigiam de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), naquela região, propina avulsa e em forma de mesada para devolver drogas apreendidas dos bandidos, soltar comparsas de traficantes, avisá-los quando haveria batidas nos pontos de venda. Chegavam até a intervir em acertos de contas entre bandos rivais. Não admira que aos meliantes fardados tenham sido imputados oito tipos diferentes de crimes: corrupção, concussão, falsidade ideológica, violação de sigilo profissional, associação para o tráfico, peculato, prevaricação e organização criminosa. Um verdadeiro passeio pelo Código Penal, digno de tarimbados bandidos. Entre os presos não há oficiais, mas 1 subtenente, 7 sargentos, 13 cabos e 33 soldados.

Depois, foram decretadas mais 5 prisões preventivas, chegando a 59 o total de mandados expedidos pelo juiz Ronaldo João Roth. Ele também expediu 70 mandados de busca e apreensão em 19 municípios de 3 Estados – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, ampliando a dimensão da operação, que em São Paulo foi executada por 450 PMs acompanhados por promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A investigação da Corregedoria da PM foi minuciosa, feita com base na análise de 82 mil ligações telefônicas e no monitoramente da entrega de dinheiro dos bandidos aos policiais, o que mostra que o comando da instituição parece determinado a combater com rigor a corrupção em seus quadros.

Os exemplos citados em reportagem do Estado mostram como naquela unidade da PM a corrupção se alastrou. Os valores variavam de R$ 300 a R$ 10 mil. Em troca de até R$ 1,5 mil fixo, além de pagamentos extras, policiais corruptos deixavam funcionar normalmente pontos de droga de um traficante ligado ao PCC. Noutro caso, a negociação da propina começou em R$ 50 mil e terminou em R$ 4 mil. O despudor chegou a tal ponto que policiais recebiam a incumbência de prender rivais dos bandidos “amigos”, como se fossem simples capangas, só que dispondo do poder de agentes do Estado.

Embora seja tranquilizador constatar que a própria PM demonstra ter condições de reagir à deterioração de seus próprios quadros e, juntamente com o Ministério Público e a Justiça, processar e punir os culpados, o caso é um grave sinal de alerta. Em todo o mundo, mesmo nos países mais ricos e bem organizados, a corrupção é um mal que ronda permanentemente as polícias, o que ficou ainda pior com a expansão do narcotráfico, um tipo de crime particularmente poderoso do ponto de vista financeiro.

No Brasil, poucos são os Estados que têm conseguido evitar que a corrupção se alastre nos sistemas policial e penitenciário. São Paulo, apesar dos pesares, apresenta uma situação melhor que a média do País. O Estado progrediu muito no combate ao crime e não pode perder essa conquista. É preciso preservá-la a todo custo e fazer cada vez mais, não apenas por esse ser um exemplo a inspirar outros Estados, como principalmente porque o policial que se torna bandido é pior do que o bandido comum.

É especialmente revoltante que uma pessoa que a sociedade arma e paga com o dinheiro de seus impostos para defendê-la se aproveite desse privilégio para cometer uma coleção de crimes como aqueles de que foram acusados os policiais corruptos do 22.º Batalhão da PM. O dramático exemplo de outros Estados, onde se fez vista grossa à corrupção policial, é uma advertência a São Paulo.

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