Cracolândia, uma chaga aberta

Dificuldade para acabar com problema não pode ser sinal de rendição do poder público

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 03h00

“É uma situação insana e inadmissível. Quando eles querem fazer bagunça, fazem. Alguém deveria se debruçar sobre a situação da área para tomar consciência do que isso representa.” O dramático relato de uma moradora da região da Cracolândia, no centro de São Paulo, retrata muito bem uma ferida aberta há demasiado tempo na maior cidade do País.

De fato, é inadmissível que o poder público não seja capaz de impor a ordem em um espaço tão circunscrito. Quando haverá uma solução definitiva para um problema que tanto aflige os paulistanos? Sucessivos prefeitos já passaram pelo Edifício Matarazzo e elaboraram seus planos para acabar com a degradada região da Cracolândia, todos sem sucesso, como qualquer um é capaz de constatar com os próprios olhos. Só o drama dos moradores, comerciantes, dependentes químicos, traficantes e transeuntes da região central é perene.

Na tarde de terça-feira passada, um grupo de usuários de crack promoveu mais um arrastão que levou pânico aos motoristas parados no congestionamento na Rua Helvétia com a Conselheiro Nébias. Dezenas de homens e mulheres visivelmente fora de si apedrejaram carros, chegando a entrar em alguns deles, e levaram tudo o que conseguiram carregar dos motoristas. Estes, aterrorizados, aceleraram seus veículos quando podiam e avançavam sobre as calçadas. Foi um milagre não ter havido mortos ou feridos com gravidade.

Noticiou-se que o arrastão teria começado após uma operação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) na região. A verdade é que a irrupção de violência na Cracolândia não precisa de uma causa. Quando quer “bagunçar”, como relatou a moradora ao Estado, o grupo que lá está “bagunça”. E não raras vezes atiçado pelos próprios traficantes que atuam na região, que têm todo o interesse em usá-los como uma espécie de contenção às ações de repressão ao tráfico.

A bem da verdade, a Cracolândia hoje não é mais o que já foi em um passado recente, uma terra de ninguém onde milhares de pessoas sem qualquer controle sobre seus atos praticamente vegetavam em uma área confinada à espera da próxima dose de droga para aplacar sua dependência. Políticas públicas de acolhimento social, atendimento médico e psicológico, combate ao tráfico de drogas e reurbanização da região mitigaram o problema, com resultados pontuais, mas, como está claro, não o resolveram. Hoje, pode-se dizer que não há mais uma Cracolândia, mas pequenas “Cracolândias” em algumas áreas da cidade.

É dever da Prefeitura de São Paulo, com o apoio do governo do Estado no que for cabível, traçar um plano para, se não acabar de imediato com a Cracolândia, ao menos reduzir danos e projetar a reinserção daquela área degradada à vida da cidade no futuro. Estima-se que a população que frequenta a Cracolândia diariamente para consumir drogas – em sua maioria homens, negros ou pardos e com idade média de 35 anos – seja de, aproximadamente, 1.700 pessoas. Há que se entender as razões que levaram essas pessoas à situação tão degradante e traçar políticas públicas que, enfim, deem uma solução definitiva para um flagelo que, antes de tudo, é humanitário.

A solução para o problema da Cracolândia passa, necessariamente, por uma política de longo prazo que combine ações de assistência social, atendimento médico, suporte psicológico aos dependentes, reurbanização e, não menos importante, um combate incessante ao tráfico de drogas.

O crack há muito deixou de ser um problema da cidade de São Paulo. De acordo com o Observatório do Crack, da Confederação Nacional de Municípios (CNM), a droga está presente em 558 dos 645 municípios de São Paulo.

É de reconhecer que o problema da Cracolândia é de difícil solução. Envolve a brutal dependência química, dramas sociais e familiares muito particulares e a expansão cada vez maior do tráfico de drogas. A dificuldade, no entanto, jamais poderá servir como sinal de rendição do poder público.

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