Crédito, primeira ação anticrise

Resultado da megaoperação do BC para expansão do crédito já apareceu em março

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 03h00

Acossadas pela redução dos negócios, pelos problemas de caixa e pela perda de renda, empresas e famílias foram em busca de crédito para poder liquidar as contas ou simplesmente sobreviver. Em resposta aos primeiros efeitos econômicos da pandemia, o Banco Central (BC) criou condições para a expansão do crédito. Para isso, ampliou o dinheiro disponível para financiamentos e afrouxou requisitos de operação dos bancos. O resultado inicial dessa megaoperação de socorro aparece nos dados de março, com aumento mensal de 3,5% nas concessões de empréstimos, descontado o efeito sazonal. No crédito livre, isso é, sem recursos do BNDES e da poupança, a variação foi de 4%, com expansão de 28,2% no total concedido a empresas e retração de 11,4% no valor concedido a pessoas físicas.

Era previsível, diante da emergência, um forte aumento da procura de recursos para capital de giro, essencial para as operações de curto prazo das empresas. Em março, o crédito para essa finalidade foi 86,6% maior que em fevereiro. Dentro desse conjunto, os empréstimos para capital de giro com prazo inferior a 365 dias cresceram 148,9%. Com a receita severamente reduzida, a maior parte das empresas, incluídas as grandes, teria pouco fôlego para enfrentar os compromissos do dia a dia.

Nem todos os candidatos tiveram sucesso. Houve queixas, principalmente de empresas pequenas e médias. Muitos bancos mantiveram cautela e foram muito seletivos na concessão de empréstimos. O BC reconheceu o problema e continuou buscando meios de fazer o dinheiro chegar ao tomador final.

Apesar disso, os números de março mostram uma considerável expansão nos financiamentos. O saldo total das operações de crédito do sistema financeiro nacional cresceu 2,9% no mês e atingiu R$ 3,59 trilhões, soma equivalente a 48,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Um ano antes a proporção era de 47%.

O aumento ocorreu principalmente no segmento de crédito livre, como já se observou no ano passado. Essa tendência é explicável basicamente pelo peso maior do mercado na conformação das operações de financiamento. Essa característica se manteve em março, apesar da emergência econômica e da interferência maior do Executivo na política de crédito a empresas e famílias. Diante dos problemas causados pela pandemia, papéis estratégicos foram designados à Caixa Econômica e ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os efeitos dessa decisão poderão ser mais perceptíveis nos dados de abril.

Vale a pena destacar dois dados especialmente positivos. O primeiro se refere aos juros. O indicador do custo de crédito, equivalente ao custo médio das operações de todo o sistema, ficou em 20,1%, com redução de 0,2 ponto porcentual no mês e de 0,8 ponto em relação ao nível de março de 2019. No crédito livre, a taxa média caiu para 32,2% ao ano, com redução mensal de 0,9 ponto e queda de 5,1 pontos na comparação interanual. Outro ponto notável, nas circunstâncias, é a estabilidade da inadimplência, mantida em 3,8% nas operações do crédito livre.

Nas maiores economias, a política de crédito foi a primeira ferramenta acionada para sustentar os negócios na crise associada à covid-19. As medidas fiscais, como adiamento de impostos e transferência de recursos a empresas e famílias, vieram em seguida. Basicamente, esse roteiro foi seguido também no Brasil.

Na emergência, houve articulação informal entre a política fiscal, tocada pelo Executivo, e a política monetária (juros e crédito), conduzida pelos bancos centrais. As duas linhas de ação foram definidas com foco nos desafios imediatos, ficando em segundo plano as preocupações com outros efeitos das medidas. Passado o maior perigo, será preciso restabelecer os cuidados com as contas públicas e, no caso de alguns países, com a estabilidade dos preços. O risco de inflação, no entanto, é muito moderado na maior parte do mundo. No Brasil, o desafio político pós-pandemia será o retorno aos ajustes e reformas, sem leniência e sem prioridade às preocupações eleitorais.

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