Cresce a ameaça da inflação

De susto em susto o dólar se agita e dá mais impulso à alta de preços

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 03h00

Fortes sinais de alerta continuam surgindo no front da inflação, enquanto a economia se move lentamente, dezenas de milhões esperam a ajuda emergencial e as tensões políticas se multiplicam. O dólar caro segue alimentando a alta de preços, enquanto o câmbio reflete, em sua instabilidade, a insegurança do mercado diante da política econômica, ainda emperrada, e do futuro das contas públicas. Os aumentos no atacado só contaminam o varejo parcialmente, mas a alta de preços no campo, nas cooperativas e nas indústrias é uma crescente ameaça de problemas para o consumidor já muito sacrificado. Em Brasília, o presidente se mantém distante desse mundo, enquanto a equipe econômica tropeça nas armadilhas do Centrão.

A inflação ganhou velocidade em março, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Seu Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) subiu 2,94% no mês, acumulando alta de 8,26% no ano e de 31,10% em 12 meses. A variação mensal havia sido de 2,53% em fevereiro. Houve aceleração nos três grandes componentes do indicador. Os preços ao produtor aumentaram 3,56%, enquanto os preços ao consumidor subiram 0,98% e o custo da construção variou 2%. Em 12 meses os preços ao produtor dispararam 42,57%, enquanto a cesta de compras do consumidor encareceu 5,74%. O aperto das famílias explica, em boa parte, a limitação do repasse dos aumentos aos compradores finais.

A disparada dos preços no início da cadeia também é mostrada claramente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A inflação da indústria chegou a 5,2% em fevereiro, com a maior variação mensal da série iniciada em 2014. A taxa de janeiro, de 3,55%, já havia sido recorde. Igualmente recordes são a alta no ano (8,95%) e em 12 meses (28,58%). Esse índice reflete a variação de preços coletados na porta de fábrica, sem frete e sem impostos.

O resultado mensal foi determinado principalmente pelos aumentos observados nas indústrias extrativas (27,91%), nas de refino de petróleo e produtos de álcool (12,12%) e nas de outros produtos químicos (9,69%). Houve aumentos de preços em 23 das 24 atividades industriais cobertas pela pesquisa.

Esse quadro reflete, em primeiro lugar, a alta das cotações internacionais de produtos básicos, como minério de ferro e petróleo. Mas esses preços também têm sido afetados, no mercado interno, pelas oscilações do câmbio. Nos 12 meses até fevereiro, o dólar encareceu 25%, lembrou o técnico Felipe Figueiredo Câmara.

Apesar do repasse limitado, os aumentos também aparecem no varejo, como se observa nos indicadores produzidos pelas várias instituições de pesquisa. O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,93% em março, com forte aceleração em relação ao mês anterior, quando a variação chegou a 0,48%. A alta de março foi a maior para o mês desde 2015, quando atingiu 1,24%. O resultado final do mês deve sair em 9 de abril, com a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Com 5,52% de alta acumulada em 12 meses, o IPCA-15 já ultrapassou o limite superior (5,25%) fixado para a inflação oficial para o ano de 2021. O Banco Central (BC) começou a agir. Elevou a taxa básica de juros de 2% para 2,75%, há cerca de duas semanas, e deverá decidir um novo aumento, para 3,50%, na próxima reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom), em maio.

Juros mais altos elevarão o custo de financiamento do Tesouro, dificultando a arrumação das contas e a contenção do aumento da dívida pública. Além disso, o crédito mais caro poderá atrapalhar a recuperação da economia e do emprego. Mas uma inflação mais acelerada poderia gerar problemas ainda mais graves para o governo e para as famílias.

Diante do surto inflacionário, o BC faz seu trabalho. O presidente da República poderia dar alguma contribuição, deixando um pouco de lado seus objetivos pessoais, cuidando mais de assuntos de interesse nacional, provocando menos conflitos e proporcionando um pouco mais de tranquilidade ao mercado. Com um dólar mais acomodado a inflação seria menos pressionada.

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