Crise hídrica e de transparência

Uma comunicação clara deve prevalecer sobre os interesses eleiçoeiros de Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 03h00

O Brasil atravessa a pior crise hídrica em mais de um século de medições meteorológicas no País. A estiagem afeta, principalmente, a Bacia do Rio Paraná, em cuja região hidrográfica estão os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Grandes usinas hidrelétricas estão concentradas nesta região, como as usinas de Jupiá, Ilha Solteira, Porto Primavera e Itaipu.

Atualmente, o País tem 83% de sua matriz elétrica produzida por fontes renováveis, de acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME). A participação das hidrelétricas representa 64% do total destas fontes, seguida de muito longe pelas usinas eólicas (9,3%). Logo, uma crise hídrica da magnitude da que ora afeta o Brasil traz a reboque, é evidente, o risco de racionamento e apagões, a menos que se gere energia a partir de fontes muito mais caras e mais poluentes, como as termoelétricas.

É espantoso que, diante de um quadro que inspira extrema preocupação, o governo federal aja com pouca ou nenhuma transparência ao lidar com a crise. O MME não divulga um indicador que determine quando é o momento de adotar o racionamento de energia no País. Na realidade, a pasta confirmou ao Estado que nem sequer há este indicador, mas, sim, “uma análise multifatorial que leva em consideração a perspectiva de consumo e de chuvas para os próximos meses”. O que é isto não se sabe.

Famílias e empresas ficam às escuras, sem trocadilho, privadas que estão de informações claras sobre a probabilidade de terem de enfrentar uma falta de eletricidade no futuro próximo. Até a posse do presidente Jair Bolsonaro, as análises do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), coordenado pelo MME, eram publicadas mensalmente. A partir de janeiro de 2019, no entanto, os dados simplesmente deixaram de ser divulgados.

“O mundo busca parametrizações para a tomada de decisão. Utilizamos termômetro para monitorar febre, e a partir de 37,5 graus é recomendado o uso de analgésico. Utilizamos o Value at Risk (VaR) para dizer quando um portfólio financeiro deve ou não ser desfeito no setor financeiro”, disse ao Estado Alexandre Street, professor do Departamento de Engenharia Elétrica do CTC da PUC-Rio. “Por que não temos um índice de monitoramento da situação de abastecimento energético?”, questiona o professor. Na visão do especialista, não faltam metodologias para adoção de um indicador mais transparente para a sociedade, e sim “boa vontade e um pouco de organização institucional”.

O ministro Bento Albuquerque afirma que o governo federal “não trabalha com a hipótese de racionamento de energia” no País, mas a situação é muito menos confortável do que sua fala quer fazer parecer. A PSR, maior consultoria do setor energético em atividade no Brasil, estima entre 10% e 40% o risco de haver racionamento de energia entre os meses de setembro e novembro deste ano, a depender da demanda. Não é um risco desprezível.

Em meio a tantas intempéries de ordem moral, sanitária, política, social e econômica em sua campanha pela reeleição, é provável que Bolsonaro tenha desenvolvido alergia à simples menção das palavras “apagão” e “racionamento”. Porém, por mais poderoso que julgue ser, a vontade do presidente não tem o condão de fazer um problema simplesmente desaparecer. É seu dever enfrentar a crise e agir com absoluta transparência. A servir-lhe de exemplo, há a experiência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso durante a crise energética de 2001. Aquela crise não foi trivial, como bem lembram os brasileiros que sofreram seus efeitos, mas em momento algum faltou comunicação com a sociedade.

Governo e sociedade devem agir em coordenação para mitigar os efeitos desta crise hídrica sem precedentes, cada um em suas esferas de responsabilidade. Sem conhecer plenamente a extensão da crise e os riscos envolvidos, a sociedade pouco pode fazer. Uma comunicação transparente deve prevalecer sobre os interesses eleiçoeiros de Bolsonaro. Os problemas da Nação são muito mais importantes do que os problemas de Bolsonaro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.