Crise mundial e oportunismo

Alta excepcional do petróleo vira pretexto para a retomada de projetos populistas que tentam conter o aumento da gasolina

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 03h00

São cada vez mais evidentes os riscos econômicos em que a invasão da Ucrânia pela Rússia colocou o mundo. O fluxo de produtos originários ou destinados à região foi ou está sendo interrompido ou severamente prejudicado. Trigo, petróleo, gás e milho estão entre os principais produtos exportados pela região. O efeito é universal. Se ainda não subiram, em algum momento subirão os preços de bens tão diversos como o pão fresco, o macarrão, insumos e matérias-primas de uma vasta lista de produtos industriais, produtos agropecuários e o custo dos transportes.

Nos dez dias que se seguiram à decisão do presidente russo, Vladimir Putin, de invadir a Ucrânia, o preço do petróleo subiu mais de 20%. Em um ano, a alta é maior do que 70%. O barril do óleo tipo Brent chegou a ser cotado perto de US$ 120. Agora, vem oscilando em torno de valores recordes dos últimos 14 anos. Em algum momento, haverá impacto sobre os preços dos combustíveis para o brasileiro. É uma das formas como a crise do Leste Europeu afetará a vida no Brasil.

Transformar crise em oportunidade é um dos muitos lemas que executivos de empresas utilizam para motivar a si mesmos e a seus subordinados em momentos de dificuldades. Parece ser também o de políticos mais interessados em angariar prestígio e voto do que em amenizar as agruras que o brasileiro, sobretudo o menos protegido, já enfrenta há anos e que a crise europeia tende a acentuar.

Atento a oportunidades geradas pela crise, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), anunciou que colocou na pauta de votação o pacote de projetos de lei que têm como objetivo declarado reduzir o preço dos combustíveis. “Precisamos tomar medidas que impeçam a elevação do preço dos combustíveis”, disse, para justificar sua iniciativa. Trata-se de evidente oportunismo.

Ainda que o senador tenha êxito e algum projeto com a finalidade por ele mencionada venha a se transformar em lei, será essencialmente inútil para atingir seu objetivo principal. O principal fator do aumento da gasolina tem sido a alta do petróleo. Leis, por mais bem-intencionadas que sejam, não impedem oscilações de preços típicas do mercado mundial de commodities, especialmente o petróleo. E o petróleo está tão caro como poucas vezes se viu na história.

A alta não é automática e integralmente repassada para o preço da gasolina. Graus diferentes de eficiência das empresas importadoras e refinadoras podem mitigar ou intensificar o efeito da alta do óleo sobre o bolso do consumidor final e sobre os custos das empresas que utilizam insumos derivados de petróleo. O câmbio igualmente afeta o preço em moeda local. Pode-se também criar uma espécie de colchão que amorteça os efeitos mais severos da alta do petróleo.

Congressistas tentam vender uma ilusão. O que eles prometem é uma solução que impeça a alta da gasolina. É populismo. Será que a Petrobras pode reduzir o preço da gasolina que está congelado há quase dois meses, período em que a cotação do petróleo explodiu? Um pouco de realismo evitaria aventuras como a que se trama no Senado.

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