Cuidado com o setor externo

O valor exportado entre janeiro e julho deste ano, de US$ 129,57 bilhões, foi 4,74% menor que o dos primeiros sete meses de 2018

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2019 | 03h00

Soa um alerta nas contas externas, com o tombo do saldo comercial, um sinal a mais para o presidente Jair Bolsonaro moderar suas atitudes e evitar prejuízos para as exportações. Ficou em US$ 24,35 bilhões o superávit acumulado de janeiro a julho na balança de bens – itens como soja, minério de ferro, café, automóveis, sapatos e aviões. Em 2018, no mesmo período, o País havia alcançado um saldo positivo de US$ 31,16 bilhões. Foi um tombo de 21,85% em um ano. Saldos muito robustos na conta de bens têm sustentado a condição ainda saudável do balanço de pagamentos e, portanto, a segurança externa da economia brasileira. Manter segura essa área deveria ser um empenho constante das autoridades. 

Como tem ocorrido há muitos anos, o superávit comercial contabilizado de janeiro a julho compensou em grande parte os saldos negativos nas contas de serviços (como transportes, seguros e royalties) e de rendas. Graças a isso, o déficit em transações correntes ficou, nesse período, em US$ 21,68 bilhões. Embora 76,84% maior que o de um ano antes, esse buraco foi facilmente coberto pelo investimento direto estrangeiro de US$ 45 bilhões em sete meses.

Na mesma comparação, o déficit em transações correntes passou de 1,14% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2,02%. É um saldo negativo administrável. Além disso, tem sido facilmente financiado com dólares destinados à atividade empresarial. Mas a evolução do quadro vale uma reflexão e uma avaliação prudentes.

O valor exportado entre janeiro e julho deste ano, de US$ 129,57 bilhões, foi 4,74% menor que o dos primeiros sete meses de 2018, enquanto o importado, equivalente a US$ 105,22 bilhões, foi 0,35% maior. As vendas externas têm sido afetadas pela redução de alguns preços agrícolas, especialmente da soja, e pela crise na Argentina. O mercado argentino é o terceiro mais importante para as exportações brasileiras, principalmente de manufaturados.

Além disso, a economia global perde vigor e o comércio tem fraquejado. O PIB da União Europeia cresceu 0,2% no segundo trimestre, depois de ter-se expandido 0,5% no primeiro. Nos Estados Unidos, a maior potência mundial, a taxa de crescimento recuou de 0,8% para 0,5% entre os dois trimestres. 

As perspectivas continuam ruins, por causa da escalada no conflito comercial entre Estados Unidos e China, pela perda de impulso nas maiores economias europeias e pela desaceleração chinesa. O governo chinês anunciou há cerca de uma semana incentivos de crédito para animar os negócios. Na zona do euro a política monetária poderá ficar mais frouxa e, nos Estados Unidos, o banco central (Federal Reserve) mostra disposição de manter uma política estimulante. 

Esperam-se, portanto, ações para reativação da economia, mas, apesar disso, convém manter a prudência e tentar limitar os males de uma desaceleração global. Isso é particularmente importante num país como o Brasil. Os brasileiros já enfrentam uma agenda complexa e penosa de reformas e de ajuste fiscal, num ambiente de baixa atividade e péssimas condições de emprego. No mercado financeiro, a mediana das projeções de crescimento econômico em 2019 recuou nos últimos dias para 0,80%. Para 2020 a expectativa de expansão está em 2,10%. 

O Brasil tem a seu favor, neste momento, dois fatores importantes. Um deles é a inflação baixa, em parte explicável pelo desemprego e pelo baixo consumo. O outro é a situação ainda segura das contas externas, um item reforçado por US$ 385 bilhões de reservas. 

É crucialmente importante preservar o máximo de segurança externa, enquanto se completa a difícil travessia de reformas e de arranjo das finanças públicas. É indispensável preservar o ingresso de capitais, manter o maior volume possível de reservas e sustentar as exportações. É enorme irresponsabilidade, em qualquer momento, criar encrenca internacional por teimosia e bravata e pôr em risco o comércio. Muito mais grave é criar conflitos por causa de uma política ambiental devastadora e injustificável por qualquer critério racional ou moral. 

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