Cuidar das pessoas em situação de rua

O enfrentamento da pandemia exige também cuidar da parcela da população mais vulnerável

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 03h05

A pandemia trouxe inúmeros desafios. São questões sanitárias, sociais, econômicas e políticas que demandam respostas maduras e responsáveis, tanto do poder público como da sociedade. Em algumas áreas, houve ações muito eficientes, como foi a vacinação de adultos contra a covid, a despeito do desleixo e da resistência do governo federal na matéria. Como já dissemos, “em São Paulo, assim como em muitos locais do País, sociedade e poder público fizeram um excelente trabalho no enfrentamento da pandemia” (SP prova que política pública funciona, 26.12.21).

No entanto, apesar das ações eficientes, a pandemia não acabou, exigindo de todos cuidado e cumprimento dos protocolos. Não se pode baixar a guarda. Além disso, alguns efeitos da pandemia estão ainda em franco crescimento. É o caso das pessoas e famílias em situação de rua. Observa-se um aumento significativo do número de pessoas nessas condições.

Essa dramática situação não é apenas consequência da pandemia. É também fruto da crise econômica e social que aflorou no governo de Dilma Rousseff e ganhou inéditas proporções no governo de Jair Bolsonaro. Não é demais repetir: a fome voltou ao País. E esse quadro de pobreza, vulnerabilidade e desigualdade foi agravado pela pandemia.

A passividade do governo Bolsonaro diante do número de mortes por covid no País – houve dias com mais de 4 mil óbitos pela doença – foi um absurdo humanitário e a negação de qualquer pretensão de eficiência do poder público. Tal irresponsabilidade gerou pronta reação de outros entes públicos, bem como da sociedade. Da mesma forma, a existência de muitas pessoas em situação de rua deve ser causa de indignação, com respostas efetivas das esferas pública e privada. Seria desumanidade fechar os olhos a tantas pessoas absolutamente vulneráveis nas ruas, nas calçadas, nas praças e nos semáforos.

Desde o início da pandemia, houve muitas ações de solidariedade por parte da sociedade. Verificou-se significativo aumento da quantidade de recursos doados a entidades filantrópicas. Em 2020, primeiro ano da pandemia, o total de doações foi mais que o dobro do ano anterior. De toda forma, é preciso fazer mais, como alertam as ruas de São Paulo e de tantas outras cidades. “Precisamos assumir, também, nossos deveres de solidariedade e ver que dentre pessoas que habitam no País há muitos que mal têm o que comer”, escreveu, no final do ano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (Nossa responsabilidade na pandemia, 21.12.21).

Estimular a participação da sociedade não é, de forma alguma, diminuir a responsabilidade do poder público no enfrentamento desse desafio humano e social. Mesmo com todas as limitações fiscais, o poder público também precisa, em suas variadas esferas, fazer mais. A pandemia exige cuidar das vacinas, dos protocolos e dos hospitais. Mas todo esse empenho, fundamental e necessário, deve também incluir, como prioridade, o cuidado com a parcela da população mais vulnerável, sem emprego, sem casa e, tantas vezes, sem comida.

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