Cultura de resistência

Na reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, o Brasil foi representado à altura

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 03h00

É difícil imaginar Jair Bolsonaro pisando em um museu por livre e espontânea vontade. Menos ainda no Museu da Língua Portuguesa, lugar de reverência ao idioma tão maltratado pelo presidente da República. Mas, ser chefe de Estado e de governo impõe certos compromissos ao mandatário que, afinal, devem ser atendidos, se não por gosto pessoal, por respeito à chamada liturgia do cargo.

Dito isto, se não chegou a surpreender, envergonhou a Nação a ausência de Bolsonaro, na condição de autoridade máxima do Poder Executivo, na cerimônia de reinauguração do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, no sábado passado. O museu foi reaberto quase seis anos após o incêndio que destruiu o prédio no bairro da Luz, grande parte de seu acervo e causou a morte do bombeiro civil Ronaldo Pereira da Cruz, que, sozinho, deu o primeiro combate ao fogo.

A razão para a ausência de Bolsonaro só ampliou o vexame. Enquanto os presidentes de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de Cabo Verde, Jorge Carlos de Almeida Fonseca, reinauguravam o museu na capital paulista, Bolsonaro passeava de motocicleta em Presidente Prudente, no interior do Estado, com um grupo de apoiadores. Foi mais um ato de campanha eleitoral extemporânea e mais uma oportunidade para Bolsonaro disseminar suas mentiras sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro.

Questionado sobre a ausência de sua contraparte brasileira, o presidente Marcelo Rebelo disse que só poderia responder por Portugal, mas afirmou que “dança quem está na roda”, citando um ditado do Minho, da região norte de seu país. “Eu estou nesta roda e estou muito feliz por estar nesta roda e nesta dança”, disse Rebelo. “Esta é uma dança que pensa no futuro da língua portuguesa e no futuro de 260 milhões de pessoas que nascem, vivem e morrem em português. Isto, para mim, é o mais importante.” Marcelo Rebelo condecorou o Museu da Língua Portuguesa com a Ordem de Camões, honraria portuguesa dada a pessoas e instituições que trabalham pela amizade entre os países lusófonos e pela divulgação do idioma. 

Se o governo brasileiro não se fez representar, o Brasil foi representado à altura. Os dignatários estrangeiros foram acompanhados pelo governador de São Paulo, João Doria, e pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, dois líderes que não só respeitam a língua pátria, a cultura nacional e a diplomacia, como também a dignidade do cargo que ocuparam. Além de Bolsonaro, Doria convidou todos os ex-presidentes brasileiros para a cerimônia de reinauguração do Museu da Língua Portuguesa. José Sarney não compareceu por apresentar sintomas de gripe. Lula da Silva e Dilma Rousseff também não estiveram presentes, mas enviaram “cartas muito amáveis” agradecendo o convite, segundo o governador paulista. Já Fernando Collor não se manifestou.

Sabe-se bem que Jair Bolsonaro tem um olhar muito rasteiro sobre a cultura do País, que a reduz a mero instrumento de guerra política. O presidente da República é incapaz de compreender a grande importância da cultura para a construção do que se pode chamar de alma nacional. Desde a campanha eleitoral, o setor cultural tem sido um dos alvos mais frequentes de suas mentiras e grosserias. No governo, Bolsonaro tem reduzido a cultura a cinzas. Em alguns casos, literalmente, como foi o caso da negligenciada Cinemateca Brasileira, consumida pelas chamas após sucessivos alertas de risco para incêndio, todos ignorados pelo governo federal. Em boa hora, o governador de São Paulo requereu à União que o controle da Cinemateca Brasileira passe ao governo do Estado, em parceria com a Prefeitura de São Paulo.

A degradação da cultura é parte fundamental do plano de Bolsonaro para apequenar o Brasil. Não chega a ser uma inovação do presidente brasileiro. De fato, não passa pela compreensão de Bolsonaro a separação entre assuntos de Estado e de governo e os seus interesses particulares, mas o ataque à cultura é parte do enredo do novo populismo autoritário que grassa em uma série de países. Para sorte do Brasil, ainda há focos de resistência a esta sanha destrutiva. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.