De fracasso em fracasso

Apesar da tentativa de controle de preços, a inflação argentina se acelera e governo anuncia uma estatal de alimentos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 03h00

O ritmo atual da inflação na Argentina e as formas canhestras com que o governo do presidente Alberto Fernández afirma tentar combatê-la compõem um enredo de frustrações, aumento da pobreza, estagnação e destruição de esperanças. O quadro talvez possa sugerir um tango sofrível, com um título óbvio: de fracasso em fracasso.

Aos problemas essenciais do quadro macroeconômico, composto por inflação alta, malogro das políticas fiscal e monetária, desemprego e dificuldades de crescimento, soma-se a recorrente questão da dívida externa – cuja solução ainda depende de decisões políticas. Para enfrentar um conjunto tão desafiador, o governo lança mão de medidas populistas notoriamente ineficazes no combate à inflação, mas altamente danosas à organização e ao funcionamento do sistema de produção, circulação e comercialização de bens e serviços.

Mal foi anunciado que a inflação de janeiro alcançou 3,9% – o que fez a variação acumulada em 12 meses somar 50,7%, uma das mais altas do mundo –, o governo anunciou estudo para a criação de uma empresa estatal de alimentos supostamente com poder para controlar preços. “A inflação é um ônus para a mesa dos argentinos e o governo avalia uma solução, não porque lhe interessa politicamente, mas porque é seu dever modificar a vida das pessoas”, disse a porta-voz do governo, Gabriela Cerruti, na ocasião.

Que a inflação é danosa para todos, sobretudo para os mais pobres, é hoje um truísmo a que governos populistas, como o que está no poder na Argentina, recorrem sem nenhum pudor para justificar medidas técnica, econômica e socialmente injustificáveis, mas que podem lhes render frutos eleitorais.

Até há pouco vigorava no país um sistema de controle de preços por meio de acordos do governo com câmaras empresariais de diversos setores. Tentativas de conter preços por tabelamento, acompanhado de fiscalização por agentes públicos ou privados, acordos com empresários ou outras formas, não deram certo em outros países e, não raro, tiveram consequências altamente danosas. Na década de 1980, quando se tentou tabelar preços no Brasil, a população foi forçada a conviver com escassez, desorganização do sistema de distribuição e comercialização de bens essenciais e, inevitavelmente, alta contínua dos preços.

O ritmo da inflação argentina mostra o fracasso dos acordos do governo com grupos empresariais. A criação da Empresa Nacional de Alimentos, agora anunciada, é a nova falácia anti-inflacionária. O objetivo da estatal, diz um de seus idealizadores – o funcionário do Ministério de Desenvolvimento Social Rafael Klejzer –, é “o planejamento, a regulação, o controle, a produção, a análise de custos e a comercialização dos alimentos”. Ou seja, será a estatização desse segmento essencial para o abastecimento da população.

Mais poder para um governo que vem fracassando em segmentos essenciais, como o combate aos desequilíbrios macroeconômicos que tolhem o crescimento pelo menos desde o início do século, significa apenas aposta em novo fracasso.

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