De volta à pré-pandemia

Indústria voltou ao patamar de fevereiro, mas a recuperação total será longa

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 03h30

Com cinco meses de crescimento, a produção industrial voltou em setembro ao nível pré-pandemia, superando por 0,2% o resultado de fevereiro, quando surgiram no Brasil os primeiros sinais da covid-19. Ficou para trás, enfim, a perda de 27,1% acumulada em março e abril, quando a economia brasileira sofreu o maior tombo registrado em décadas. Em setembro, a indústria produziu 2,6% mais que em agosto e 3,4% mais que um ano antes. Mas o balanço de 2020 acusou um desempenho 7,2% inferior ao dos nove meses correspondentes de 2019. Em 12 meses sobrou uma queda de 5,5%.

Empresários da indústria têm-se mostrado mais otimistas que os do comércio e mais confiantes que os consumidores. Em outubro o Índice de Confiança do Empresário Industrial continuou em alta, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Há diferenças entre ramos industriais, mas os sinais de otimismo predominam. Tendência semelhante vem sendo mostrada, há alguns meses, pelas sondagens da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Otimismo empresarial pode produzir resultados positivos, mas, no caso da indústria, a recuperação efetiva ainda vai dar muito trabalho. Não basta retomar o nível de produção de fevereiro, isto é, da pré-pandemia. Além disso, o percurso ainda estará incompleto se for recuperado o patamar de 2019. Em setembro, a produção da indústria geral ainda estava 15,9% abaixo do pico alcançado em maio de 2011, no quinto mês do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Examinando-se a série histórica, o declínio é visível a partir de 2012, isto é, bem antes da recessão de 2015-2016.

Favores fiscais e financeiros, muito custosos e mal planejados, foram insuficientes para impedir o enfraquecimento do setor e sua perda de competitividade. O governo federal favoreceu alguns segmentos e grupos, especialmente aqueles escolhidos para ser “campeões nacionais”, mas a política foi desastrosa para a maior parte da indústria.

Protecionismo excessivo e baixa integração nas cadeias globais compõem parte importante dessa história. Uma diplomacia econômica mal concebida estimulou uma perigosa acomodação de alguns segmentos industriais, com pouco ou nenhum estímulo à inovação e à busca de eficiência.

A aliança entre petismo e kirchnerismo é facilmente caracterizável como um pacto de mediocridade.

Parte importante da indústria tem dependido excessivamente dos mercados sul-americanos, em especial do argentino. A indústria automobilística ilustra bem essa dependência. A redução de suas vendas externas, nos últimos anos, é explicável principalmente pela crise argentina.

Em 2017 as exportações totais de veículos montados chegaram a 766,1 mil unidades. Essas vendas caíram para 629,2 mil em 2018 e 428,2 mil em 2019. Neste ano, até setembro, foram exportados 207,3 mil veículos, 38,6% menos que um ano antes, segundo a Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

Em 2020, a crise interna, ocasionada pelo coronavírus, somou-se à crise internacional e, especialmente, às dificuldades argentinas, já consideráveis antes da covid-19. Com o mercado interno arrasado, a produção da indústria automobilística chegou, no pior momento, muito perto de zero. Isso explica os números espantosos da recuperação a partir de maio. Em setembro, a produção de veículos automotores, carrocerias e reboques foi 14,1% maior que a de agosto. O crescimento em cinco meses chegou a quase incríveis 1.042,6%, mas o total de setembro ainda foi 12,6% menor que o de fevereiro.

De janeiro a outubro a exportação total da indústria de transformação ficou em US$ 93,8 bilhões, com perda de 13,2% em relação ao valor de um ano antes, segundo o Ministério da Economia. Mais do que em condições normais, a recuperação do setor continuará a depender do mercado interno. Com o fim do auxílio emergencial e com o alto desemprego, manter o consumo será complicado em 2021. O otimismo dos empresários industriais é importante, mas será preciso algo mais para sustentar a retomada. Esse algo mais depende do governo.

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