De volta ao realismo comercial?

Brasil e EUA, as maiores economias americanas, poderão enfim ligar-se por um acordo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 03h00

Brasil e Estados Unidos, as duas maiores economias americanas, poderão enfim ligar-se por um acordo comercial, se as boas palavras de um e de outro lado tiverem algum valor prático. “Vamos trabalhar por um acordo de livre comércio com o Brasil”, disse na Casa Branca o presidente Donald Trump, num contato com jornalistas. O objetivo é firmar o acordo mais ambicioso e abrangente, disse em Brasília o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Marcos Troyjo. Este será quase certamente o grande assunto do secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, no encontro programado para hoje, em Brasília, com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. O secretário americano já se encontrou em São Paulo com dirigentes de empresas do Brasil e dos Estados Unidos e a ideia de um pacto comercial foi explorada.

O governo brasileiro só poderá negociar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos em companhia dos demais sócios do Mercosul, Argentina, Paraguai e Uruguai. O bloco é uma união aduaneira e nenhum de seus membros pode firmar isoladamente um acordo daquele tipo. No caso do recém-concluído acordo com a União Europeia, os dois lados atuaram coletivamente.

A busca de um pacto comercial com os Estados Unidos foi anunciada pelo presidente Mauricio Macri, da Argentina, poucos dias depois de concluída a negociação do Mercosul com a União Europeia. A pauta diplomática do bloco sul-americano incluiria também o avanço em conversações do Japão, Canadá e Coreia. A Argentina ocupava, naquele momento, a presidência rotativa do Mercosul. O Brasil deveria assumir o posto logo depois.

Se a negociação com os Estados Unidos prosperar, os governos do Mercosul retomarão, em novas condições, uma agenda interrompida há pouco mais de 15 anos, quando os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner torpedearam o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Sob liderança do petismo e do kirchnerismo, o Mercosul só manteve – e com muitos entraves – uma negociação com um grande mercado de primeiro mundo, a União Europeia.

Por um longo período, a diplomacia do bloco, subordinada a um terceiro-mundismo requentado, concentrou-se na busca de entendimentos Sul-Sul, dando prioridade a mercados modestos e pouco desenvolvidos. Enquanto isso, grandes parceiros emergentes, como China, Rússia e África do Sul, estavam mais interessados em fechar negócios com o mundo mais avançado e rico.

Além de negligenciar os entendimentos com parceiros mais desenvolvidos, o Mercosul ainda regrediu como bloco. Manteve o status formal de união aduaneira, mas nunca chegou a implantar plenamente as condições – menos ambiciosas – de área de livre comércio. Barreiras intrabloco foram mantidas e nunca se consolidou uma efetiva integração produtiva entre os sócios.

Enormes oportunidades foram perdidas. A China tornou-se o maior mercado para mercadorias brasileiras, mas apenas primárias, como produtos agrícolas e minerais. Os manufaturados nunca chegaram a representar 5% das vendas brasileiras. Os Estados Unidos permaneceram, individualmente, como segundo maior parceiro, mas com um comércio muito mais diversificado. Ano após ano, os manufaturados têm proporcionado cerca de 50% – e até mais – da receita obtida no mercado americano. Os governos petistas mostraram-se incapazes, por limitação ideológica, de buscar o máximo proveito em cada relação.

Liquidada a Alca, os EUA fecharam acordos comerciais com países da América do Sul e da América Central. Já eram associados ao México e ao Canadá no Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta). O Mercosul ficou para trás.

Se houver realismo e competência diplomática, o Mercosul poderá avançar, depois de muito atraso, no rumo da integração internacional. Mas o governo brasileiro terá de se mostrar capaz de distinguir entre interesse econômico e alinhamento. Se falhar, errará como o PT, mas com sinal trocado.

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