Décadas perdidas, ou nem tanto

Até a inflação em alta ajuda quem quer apostar num ano de retomada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 03h00

Pela primeira vez em dez anos a barreira de 4% foi atingida – e até superada – nas projeções de crescimento econômico registradas na pesquisa Focus, sondagem realizada semanalmente pelo Banco Central (BC). O Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 4,36% em 2021, segundo a mediana das projeções. Com data de 4 de junho, o relatório divulgado na segunda-feira passada é o mais otimista desde a reação iniciada em maio do ano passado, depois da grande queda no início da pandemia. Se a expectativa for confirmada, o Brasil voltará ao patamar de 2019, anterior à queda de 4,1% sofrida no ano passado. Até a semana anterior, as estimativas sintetizadas na pesquisa indicavam retorno só em 2022.

As previsões nunca foram tão altas desde o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Em 3 de junho de 2011 a pesquisa Focus mostrou, pela segunda semana seguida, a expectativa de expansão econômica de 4% naquele ano. A projeção caiu para 3,96% na semana seguinte e só voltou a esse patamar dez anos depois. Números iguais ou superiores a 4% apareceram, ainda por algum tempo, nas estimativas para os anos seguintes, ficando fora, no entanto, das previsões para o ano corrente.

Em 2011 o PIB cresceu 3,97%, ou, com arredondamento, 4%. Em todo o período até 2020 as taxas anuais foram sempre bem inferiores, chegando a ser negativas em 2015, 2016 e 2020. A expansão econômica de 7,53% em 2010 foi o último desempenho vistoso. Depois disso veio um período já rotulado como década perdida.

Uma década menos sombria pode estar começando, segundo avaliação captada entre analistas do setor financeiro e de algumas consultorias. As bases mais concretas desse otimismo são o crescimento econômico de 1,2% no primeiro trimestre, a ajuda proporcionada pela retomada internacional e a evolução das contas públicas.

Mas a reativação econômica, no Brasil, permanece muito dependente do agronegócio. A maior parte da indústria de transformação continua com baixo dinamismo e com escasso poder de competição externa. Além disso, dezenas de milhões de brasileiros ainda dependem de ajuda para sobreviver. O desemprego no primeiro trimestre chegou a 14,7% da população ativa e boa parte dos ocupados trabalha em condições precárias. Além disso, a inflação está acelerada e, segundo projeção do boletim Focus, deve chegar a 5,44% neste ano, superando o limite de tolerância (5,25%). Para o próximo ano está prevista uma alta de preços de 3,70%, superior ao centro da meta (3,50%).

Falta os otimistas explicarem como será – e como afetará a vida dos brasileiros – esse crescimento econômico de 4,36%, se muitos milhões de trabalhadores continuarem fora do jogo. Além disso, esses milhões ainda terão de enfrentar preços em alta acelerada.

Mas a inflação poderá facilitar a recuperação nominal das contas públicas, inflando a receita tributária. Isso criará a ilusão de um forte ajuste fiscal, mas o problema poderá reaparecer adiante. Nesta altura, até o dólar valorizado ajuda o Tesouro, alimentando a inflação e aumentando a base de arrecadação, em reais, do Imposto de Importação. Esse efeito já tem sido assinalado pelo Tesouro.

No próximo ano, segundo o Focus, o crescimento do PIB deverá ficar em 2,25%. Faltará fôlego, ao Brasil, para manter o ritmo estimado para este ano. Mas a década perdida, dirão alguns, terá ficado para trás. Terá mesmo?

Década perdida foi um rótulo aplicado também ao decênio 1981-1990. Foi um período de graves problemas econômicos, mas também de consolidação do agronegócio moderno e de expansão das exportações. Houve a busca difícil e acidentada de um caminho para a estabilização econômica. O poder civil foi restabelecido, uma Constituição foi aprovada. Depois a economia se ajustou e cresceu, num ambiente de direitos e de equilíbrio entre Poderes – uma ordem ameaçada, desde 2019, por movimentos golpistas e manifestações autoritárias de um presidente conhecido por elogios a ditaduras e por suas homenagens a um torturador. Na economia, como na política, a retomada dos anos 1990 foi diferente.

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