Deixando os dólares fugir

Além de assustar os investidores, o País tem sido incapaz de reter os dólares

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 03h00

O mercado mundial vai muito bem para o Brasil, com as grandes economias em recuperação e a China comprando volumes crescentes de alimentos e de minérios. Além disso, há muito dinheiro em circulação e investidores dispostos a buscar oportunidades no mundo emergente. Mas o País tem sido incapaz de reter boa parte dos dólares faturados com exportações e de atrair investimentos para acelerar sua expansão. O Brasil deve receber US$ 55 bilhões de investimentos diretos, neste ano, segundo estimativa do mercado captada em pesquisa do Banco Central (BC). Mas até essa estimativa, embora modesta quando comparada com resultados de uma década, parece otimista diante dos pífios valores acumulados nos últimos meses.

Com baixo crescimento, mesmo depois de ultrapassada a recessão de 2015-2016, o País ainda conservou algum atrativo para o investidor estrangeiro até o último ano antes da pandemia. Mas esse atrativo tem declinado, por causa das indefinições da política econômica, das incertezas quanto à evolução das contas oficiais e da dívida pública e, de modo especial, de atitudes e orientações do presidente Jair Bolsonaro. Sua política ambiental, tolerante e até favorável à devastação de florestas e de outros ativos naturais, tem desencorajado a aplicação de recursos no mercado brasileiro. Além disso, tem estimulado a fuga de capitais. Tudo isso se reflete, por exemplo, na desvalorização excessiva do real.

O Brasil contabilizou US$ 39,26 bilhões de investimentos diretos nos 12 meses até março. Esse dinheiro foi mais que suficiente para cobrir o buraco das transações correntes, no valor de US$ 17,83 bilhões no mesmo período. As transações correntes são o resumo principal das transações externas (comércio de bens, conta de serviços e movimento de rendas). Investimentos diretos são a melhor forma de investimento estrangeiro, porque se destinam à atividade empresarial e são menos voláteis que as aplicações no mercado de papéis, isto é, de ações e títulos de dívida.

Esses investimentos vêm declinando há mais de dois anos. Atingiram US$ 78,16 bilhões em 2018, diminuíram para US$ 69,17 bilhões em 2019 e encolheram para US$ 34,17 bilhões em 2020, quando a pandemia afetou duramente a economia global e os fluxos de capitais. Apesar de alguma recuperação, ainda se mantiveram, nos 12 meses terminados em março, bem abaixo dos volumes observados na fase anterior à covid-19.

Também o ingresso de recursos no mercado de papéis tem sido afetado. O volume oscila, mas a insegurança dos investidores – nacionais e estrangeiros – é constante. As incertezas tornam-se visíveis no mercado de ações, na determinação dos juros futuros e, é claro, nas oscilações cambiais. Pelas condições do comércio externo e pelo volume de reservas, o câmbio brasileiro poderia estar na vizinhança de R$ 4,50 por dólar, dizem especialistas, mas dificilmente a moeda americana é negociada abaixo de R$ 5,40.

O Brasil poderia beneficiar-se muito mais do ciclo de alta dos produtos básicos. A economia continua emperrada, os investimentos são insuficientes para dinamizar o crescimento e o ganho das vendas externas escorre para fora. O País tem feito muito menos que o necessário para reter os dólares e para atrair mais investimentos, segundo declaração atribuída pelo site especializado Investing.com a Drauzio Giacomelli, estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank.

Entrevistado pelo Estado, o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, apontou a perda de importância do País para o investidor estrangeiro. Tendo reduzido sua exposição, esse investidor hoje pode, se quiser, “ignorar o Brasil”. Para mudar esse quadro, será preciso dar previsibilidade às condições econômicas e financeiras.

Com a insegurança, perdem-se investimentos e dinheiro já conquistado é mantido lá fora. Exportadores, segundo se estima, deixam no exterior mais de US$ 40 bilhões. Quando se considera todo o dinheiro mantido em contas estrangeiras, fala-se em cerca de meio trilhão de dólares. Isso é parte do custo da incerteza.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.