Democratas não temem o debate

A eventual ausência de Lula e Bolsonaro nos debates eleitorais empobrecerá as discussões sobre o futuro doPaís; sem confronto de ideias, não há democracia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2022 | 03h00

É dever do presidente que concorre à reeleição, ao menos do ponto de vista político, prestar contas aos eleitores de seus atos e omissões durante o mandato que termina. Uma eleição presidencial que tem o incumbente entre os candidatos é uma eleição plebiscitária por natureza. Ao fim e ao cabo, os eleitores decidirão se aprovam o governante de turno, concedendo-lhe mais um mandato, ou se o reprovam, substituindo-o por outra pessoa no cargo.

Os debates na TV durante a campanha talvez sejam os momentos mais preciosos para que essas explicações sejam dadas à sociedade. Questionado por jornalistas, adversários e eleitores, o incumbente tem nos debates excelentes oportunidades para defender pessoalmente sua administração. Quem melhor do que ele haveria de fazê-lo?

Ao comparecer aos debates, o presidente que tenta a reeleição também demonstra, de antemão, ter coragem e espírito público, independentemente do que venha a dizer e de como os outros reagirão. Os democratas não temem a divergência. E aqui cabe louvar a postura da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que durante a campanha de 2014, quando concorria à reeleição, compareceu a todos os debates, sem medo de ser confrontada com os graves erros que cometeu em seu primeiro mandato.

O presidente Jair Bolsonaro, que também tenta a reeleição, não é um democrata nem tampouco demonstra ser alguém capaz de defender o seu “legado”, chamemos assim. Por isso, não surpreende sua decisão de, assim como em 2018, evitar o confronto de ideias com seus adversários. Em entrevista ao Programa do Ratinho, Bolsonaro afirmou que não está disposto a participar de debates antes do segundo turno porque, caso vá aos encontros, “os dez candidatos ali vão querer o tempo todo dar pancada” e ele “não teria tempo de responder”.

O que o presidente mais teme é ver ruir o mundo de fantasia que criou para justificar o absoluto fracasso de seu governo diante dos fatos que, seguramente, serão explorados por seus adversários.

A bem da verdade, esse temor não é exclusivo de Bolsonaro. Seu principal adversário no momento, Lula da Silva (PT), também já indicou que não pretende ir aos debates antes do primeiro turno caso Bolsonaro também não compareça. A razão é óbvia: sem Bolsonaro na tribuna, boa parte dos questionamentos dos candidatos recairia sobre o atual líder das pesquisas de intenção de voto. E Lula, assim como Bolsonaro, recorre a mentiras e mistificações para escamotear os danos que causou ao País.

Os debates seriam uma ótima oportunidade para submeter ao escrutínio público os discursos lulopetistas e bolsonaristas sobre as alegadas qualidades de seus governos. Como se sabe, o governo Bolsonaro, segundo os bolsonaristas, seria o melhor da história do Brasil não fossem a pandemia, os governadores, os prefeitos, a esquerda, o “sistema”, o Supremo, a guerra na Ucrânia, a ganância da Petrobras ou qualquer outro inimigo imaginário. Por sua vez, Lula quer que os brasileiros acreditem que o Brasil governado pelo PT seria o país das maravilhas não fossem o “golpe” contra Dilma Rousseff, a “insensibilidade das elites”, a “ganância dos banqueiros”, a “imprensa golpista”, entre outros adversários do “povo” que os petistas julgam representar.

Tanto petistas quanto bolsonaristas consideram que os eleitores reconheceriam as inegáveis qualidades de seus governos não fosse o mau jeito na hora de se comunicar. “O maior erro do governo, no meu ponto de vista, foi a comunicação”, disse recentemente o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, ao SBT. No mesmo espírito, o petista Fernando Haddad disse ao jornal O Globo que, malgrado a surra que levou na eleição de 2016 à Prefeitura de São Paulo, poderia ser considerado um “prefeito visionário”, não fossem as “falhas de comunicação”.

Se isso fosse verdade, bastaria comparecer aos debates e comunicar corretamente as maravilhas bolsonaristas e petistas. O problema é o risco, óbvio, de que, uma vez submetidos ao contraditório, ao vivo, esses discursos se desmanchem no ar. Mas assim é a democracia. 

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