Derrapando na crise argentina

Apesar da crise, a Argentina se manteve em 2018 como terceiro país mais importante para as vendas externas brasileiras

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2019 | 03h00

Principal parceiro no Mercosul e terceiro maior mercado para as exportações do Brasil, a Argentina em crise impõe uma trava à recuperação da indústria automobilística brasileira. Em janeiro, foram produzidos 196,8 mil veículos, 10,9% mais que em dezembro e 10% menos que um ano antes, segundo a associação nacional do setor (Anfavea). Esta queda é explicável pela redução das vendas externas. Foram vendidos apenas 25 mil veículos, número 46% menor que o de janeiro de 2018 e 21,1% inferior ao de dezembro. A menor demanda argentina puxou para baixo o total exportado. A participação do mercado argentino nas exportações brasileiras de veículos e máquinas automotoras caiu de 72% em 2018 para 56%. México e Colômbia ganharam participação porcentual nos negócios.

Essas proporções correspondem às unidades vendidas. As proporções são outras quando se consideram valores, mas a tendência de queda se mantém clara. No mês passado as vendas externas de veículos e máquinas agrícolas e rodoviárias proporcionaram receita de US$ 712 milhões, 0,6% menor que a de dezembro e 29,1% inferior à de janeiro de 2018.

A indústria de veículos e tratores tem peso especial no comércio entre Brasil e Argentina, mas a crise na segunda maior economia do Mercosul afetou também as vendas de outros produtos. No ano passado, o Brasil exportou para o mercado argentino produtos no valor de US$ 14,9 bilhões, com redução de 15,5% em relação ao total de 2017, quando se consideram as médias dos dias úteis. Em janeiro, o recuo foi muito maior que o observado no conjunto de 2018. O valor das vendas brasileiras, de US$ 682 milhões, foi 43,7% menor que o de um ano antes.

Nas duas comparações, as vendas à Argentina seguiram caminho oposto ao do total das exportações brasileiras. Em 2018, o total embarcado rendeu ao País US$ 239,5 bilhões, 9,6% mais que em 2017. O total exportado em janeiro, de US$ 18,6 bilhões, superou por 9,1% o do mês correspondente de 2018. Embora as vendas externas brasileiras tenham perdido impulso no ano passado, a tendência de crescimento se manteve.

Apesar da crise, a Argentina se manteve em 2018 como terceiro país mais importante para as vendas externas brasileiras, depois da China (US$ 66,6 bilhões) e dos Estados Unidos (US$ 28,8 bilhões). O mercado argentino ainda absorveu cerca de três quartos das vendas brasileiras ao Mercosul. A receita geral dessas vendas em 2018 foi de US$ 20,9 bilhões.

Enganou-se quem menosprezou o impacto da crise argentina sobre a economia brasileira. O Brasil continuou recebendo um bom volume de investimento direto, apesar das dificuldades cambiais do país vizinho, e as contas externas brasileiras, vistas em conjunto, permaneceram saudáveis no ano passado e assim continuam. Mas a atividade brasileira foi certamente afetada pela contração argentina, estimada pelo Fundo Monetário Internacional em 2,8% em 2018 e projetada em 1,7% para 2019.

O impacto nas exportações da indústria automobilística atinge muito mais que um grande setor. A produção de veículos e de tratores, importante isoladamente, é também muito relevante por seu efeito irradiador. A fabricação de automóveis, veículos comerciais de todos os tipos, tratores e máquinas rodoviárias movimenta uma teia enorme de fornecedores de matérias-primas e de componentes. Para perceber esse efeito, basta pensar em alguns itens, como aço, plásticos, vidros e borracha. Mas, além desse conjunto de insumos, vale a pena lembrar a rede de serviços técnicos e comerciais vinculada ao setor.

Qualquer crise num parceiro tão importante quanto a Argentina afetará o Brasil. Mas o dano já sofrido seria menor, se o setor automobilístico brasileiro fosse menos dependente da vizinhança e, de modo especial, de um único parceiro. Essa dependência, muito cômoda, tem dispensado os produtores de veículos, até com a complacência e a colaboração do governo, de batalhar pela diversificação de mercados. O custo da acomodação pode ser, como se vê, muito alto.

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