Derrapando no retorno

BC mostra na prévia do PIB reação lenta e insegura no primeiro semestre

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2021 | 03h00

Para crescer em torno de 5,5% neste ano, como se prevê no mercado, o Brasil ainda precisará de um bom impulso para compensar o medíocre desempenho no primeiro semestre. A economia reagiu depois do desastre causado em 2020 pela pandemia, mas a recuperação em 2021 tem sido insegura e insuficiente para reduzir o enorme desemprego. Depois de um tropeço em maio, os negócios avançaram 1,14% em junho, mas fecharam o segundo trimestre com ganho de apenas 0,12% sobre o primeiro, de acordo com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Esse indicador, publicado mensalmente, é usado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Serve de baliza para o mercado e para as decisões de política monetária do BC.

Depois de um tombo de 4,1% no ano passado, a economia brasileira deve crescer 5,3% em 2021, retornando ao patamar de 2019, segundo o último boletim Focus. Esse boletim contém as medianas das projeções do mercado, coletadas em consultas semanais pelo BC. Estimativas de grandes bancos têm ficado na faixa de 5,1% a 5,7%.

Qualquer semelhança com as taxas de crescimento de outros emergentes, ou mesmo de alguns países desenvolvidos, é apenas aparente. Se o desempenho previsto para 2021 for confirmado, o Brasil apenas sairá do buraco, talvez com pequeno ganho, e voltará ao padrão normal dos últimos oito ou nove anos. Para 2022 as contas do mercado apontam, como mediana, uma expansão econômica de 2,05%. Pelo menos um grande banco já reduziu a estimativa de 2% para 1,5%.

Não há por que apostar em taxas muito maiores. O ritmo sustentável dificilmente deve superar a faixa de 2% a 2,5%, no médio e no longo prazos. Para isso será necessário reforçar o sistema produtivo, com investimentos muito maiores na modernização de empresas, na expansão e na melhoria da infraestrutura, no desenvolvimento tecnológico e na formação de capital humano. Será preciso revalorizar o Ministério da Tecnologia e reabilitar o Ministério da Educação, devastado por ministros à altura do presidente Jair Bolsonaro.

Se os dados do IBC-Br forem corretos ou bem aproximados, a economia pouco terá crescido no primeiro semestre, a partir do degrau atingido no fim de 2020. O ganho acumulado nesse período poderá ter batido em 1,75%, mas há, no mercado, quem estime resultado mais próximo de 1,40%. Qualquer balanço parece mostrar um avanço insignificante entre o primeiro e o segundo trimestres.

Os números ficam mais vistosos quando as comparações envolvem períodos de um ano, mas isso resulta, obviamente, de cálculos a partir de bases muito baixas. O indicador de junho foi 9,07% superior ao de um ano antes. O confronto entre o segundo trimestre de 2021 e o segundo de 2020 indica um avanço de 13,17%. Nos primeiros seis meses a atividade foi 7,01% mais alta que na primeira metade do ano passado. O efeito é menos sensível quando se mede o avanço acumulado nos 12 meses até junho sobre os 12 meses imediatamente anteriores. O crescimento, nesse caso, ficou em 2,33%.

Esse último número proporciona uma visão mais clara do avanço desde o início da retomada. Esse movimento foi irregular e essa característica é visível nos dados mensais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo esses dados, as vendas no varejo diminuíram 1,7% em junho, depois de um aumento de 2,7% no mês anterior. A produção industrial cresceu 1,4% em maio, depois de três meses consecutivos de redução, e teve expansão nula em junho. Nesse mês, os serviços avançaram 1,7% e superaram por 2,4% o patamar pré-pandemia, mas de forma muito desigual, com o turismo ainda abaixo daquele nível.

A recuperação descontínua e desigual entre segmentos e regiões é visível também no desempenho regional da indústria. Em junho, apenas cinco dos 15 locais cobertos pela pesquisa mensal exibiam produção superior àquela registrada em fevereiro de 2020, último mês anterior ao choque da pandemia. A desigualdade reflete-se também, e de modo mais doloroso, no desemprego muito superior ao observado na maior parte dos emergentes.

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