Derrota anunciada

Senadores rechaçaram o disparate de aprovar Eduardo Bolsonaro para embaixada. Isso determinou a desistência

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 03h00

Três meses após o presidente Jair Bolsonaro anunciar que indicaria seu filho Eduardo para a embaixada de Washington, o próprio deputado, a quem, segundo o pai, cabia a decisão, anunciou na Câmara sua desistência. Entre os princípios que a Constituição impõe ao exercício de postos oficiais, como legalidade, moralidade, publicidade, tal indicação agredia visceralmente dois: impessoalidade e eficiência.

Muito além de pitorescas, as credenciais apresentadas pelo deputado – os hambúrgueres fritados em intercâmbio nos EUA – são um insulto ao corpo diplomático, submetido durante toda a carreira às rigorosas provas que fazem do Itamaraty um exemplo de meritocracia na administração pública. Mas não bastasse a sua inexperiência, deu mostras reiteradas de inabilidade diplomática. À frente da Comissão de Relações Exteriores, já declarou que a transferência da embaixada em Israel para Jerusalém é questão de tempo, que o Brasil só será respeitado quando puder sacar suas armas nucleares e que é quase impossível resolver a crise na Venezuela de maneira pacífica, sugerindo uma invasão a ser liderada por tropas americanas alocadas na fronteira.

Mais grave é que a flagrante falta de experiência e têmpera foi obnubilada aos olhos de seu pai pelas alegadas relações pessoais da família com Donald Trump. Aliás, como se tivéssemos regredido da era dos Estados Nacionais à dos clãs, elas foram apontadas como o maior atributo legitimador do deputado – “Ele é amigo dos filhos do Trump” –, em mais uma evidência da incapacidade do presidente de distinguir entre interesses de governo e de Estado, e da sua disposição de emaranhar ambos em interesses de família.

Questionado por repórteres sobre nepotismo – também indisputável, se não da perspectiva legal, da moral –, o presidente os acusou de “hipócritas”. Sentindo-se, como de hábito, pessoalmente ofendido, deu vazão aos seus ímpetos arbitrários: “Sim, o Senado pode barrar sim. Mas imagine que no dia seguinte eu demita o (ministro das Relações Exteriores) Araújo e coloque o meu filho. Ele vai comandar 200 embaixadores mundo afora”. Afinal, “se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou”, confessou em outra ocasião, emendando incontinenti – como que a ilustrar a máxima de que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude –: “Mas não tem nada a ver com filé mignon essa história aí. É aprofundar um relacionamento com um país que é a maior potência econômica e militar do mundo”. No que expôs suas convicções sobre como devem ser pautadas as relações exteriores: por amizades antes que por interesses.

Ironicamente, o próprio Trump não entende assim e, ao contrário do que se rumorejou sobre seu filho, indicou para a embaixada de Brasília o diplomata de carreira Todd Chapman. Tampouco entendem assim os senadores, que, cortejados pela “Nova Política” dos Bolsonaros, rechaçaram nos bastidores o disparate. Foi isso, por sinal, em que pesem as declarações do deputado sobre seus deveres patrióticos a serem exercidos no País, que determinou a desistência. O fracasso que o presidente temia aconteceu. Felizmente, pois entre a sua desmoralização e a do País, ele não deixou ao Senado uma terceira alternativa.

Para além dos hambúrgueres e filés, já parte do folclore diplomático, o episódio é importante porque se a aventura do filho “03” em Washington foi frustrada, a do clã Bolsonaro nas relações internacionais, cujo toque mais pessoal é a subordinação, para não dizer vassalagem, a Donald Trump, segue a todo vapor. É bom que reverbere em nossos dias a advertência de Rui Barbosa aos deslumbrados dos seus: “Não quero, nem quereis nenhum de vós, que o Brasil viesse a ser o símio, o servo, ou a sombra dos EUA”. É lícito esperar que o presidente se subordine à fórmula da diplomacia consagrada desde a época do Império pelo Conselho de Estado: “Inteligente sem vaidade, franca sem indiscrição, enérgica sem arrogância”. Até agora ele tem estado longe disso.

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