Desafio jornalístico

Como ser objetivo diante de reiteradas declarações presidenciais mentirosas, cínicas ou que se prestam a confundir?

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2019 | 03h00

Presidentes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, cujos pronunciamentos muitas vezes contrariam a verdade e os fatos em múltiplas dimensões, impõem ao jornalismo um grande desafio: como ser objetivo diante de reiteradas declarações do chefe de Estado que são claramente mentirosas, cínicas ou que se prestam apenas a confundir a opinião pública? É bom jornalismo noticiar essas manifestações “objetivamente”, isto é, pelo seu valor de face, sem deixar claro ao leitor imediatamente, talvez já no título da matéria, que se trata de uma inverdade ou de uma grosseira manipulação? 

Um caso recente despertou importante discussão a esse propósito nos Estados Unidos. O centro da controvérsia foi uma reportagem do jornal The New York Times que tratou da visita do presidente Trump à cidade texana de El Paso, no início de agosto, na esteira do massacre de 22 pessoas por um supremacista branco movido por ódio racial. Na ocasião, o presidente Trump declarou que era preciso “condenar o racismo, a intolerância e a supremacia branca”. A manchete do Times foi Trump exorta união contra o racismo. O jornal foi tão duramente criticado por esse título que se sentiu obrigado a alterá-lo na segunda edição: Atacando o ódio, mas não as armas – uma referência ao fato de que Trump descartou qualquer projeto para restringir o acesso dos norte-americanos às armas, pois, segundo suas palavras, “a doença mental e o ódio puxam o gatilho, não as armas”.

A desaprovação ao jornal centrou-se no fato de que aceitou a declaração de Trump contra os supremacistas brancos como válida, embora o presidente, em diversas oportunidades, tenha feito declarações que podem ser interpretadas como incitação ao ódio racial. Ou seja, o presidente claramente estava a exercer sua conhecida hipocrisia, mas o Times, segundo seus críticos, deixou de entrar nesse aspecto no título, o que esvaziou a notícia de seu verdadeiro significado – isto é, o de que Trump estava faturando politicamente em cima de uma tragédia que muitos atribuem ao clima de rancor que o presidente explora tão bem.

O cinismo de Trump ficou ainda mais evidente quando foi ao Twitter criticar o Times por ter trocado de manchete. Segundo o presidente, a manchete original “era a descrição correta” do que ele havia dito, “mas foi rapidamente alterada (...) depois que os democratas radicais de esquerda ficaram absolutamente loucos!”.

Presidentes, por definição, têm o poder de ditar a agenda política dos países que governam, razão pela qual tudo o que dizem ou fazem recebe imediata atenção por parte da imprensa. Isso não significa que tudo o que dizem, inclusive mentiras, deva ser reproduzido “objetivamente”, isto é, como se a declaração, mesmo que seja uma mentira descarada, valesse como informação autêntica por si mesma. A imprensa, tanto quanto possível, não pode permitir-se induzir o leitor a acreditar que uma declaração sabidamente falsa é verdadeira. 

No exemplo do Times, os editores entenderam que o leitor seria capaz de perceber, pela mera descrição objetiva, que Trump estava sendo cínico, dado seu histórico de declarações agressivas. Para os críticos do jornal nesse caso, trata-se de um erro. “Os jornalistas começaram a entender que a ideia de objetividade, que aprendemos a respeitar, não está funcionando”, disse a jornalista Julia Angwin, ganhadora do Prêmio Pulitzer, em debate sobre o caso na CNN. Segundo ela, essa ideia está levando a uma “falsa equivalência” – isto é, coloca declarações falsas no mesmo patamar que informações verdadeiras, na expectativa de que o leitor saiba distinguir uma coisa da outra.

Assim, conforme esse ponto de vista, se o veículo que reproduz a declaração presidencial sabe se tratar de uma falsidade ou de uma tentativa de manipulação, deveria deixar esse fato explícito para o leitor, em vez de permitir que o presidente tenha qualquer chance de confundir os leitores.

No caso específico da manchete sobre Trump, o editor executivo do Times, Dean Baquet, reconheceu em entrevista à revista The Atlantic que a manchete “não expressava suficiente ceticismo sobre os motivos de Trump nem se ele era ou não qualificado para pedir ‘união’ ao país”. Mas acrescentou que, em sua opinião, é jornalisticamente mais adequado descrever as mentiras de Trump do que, de modo objetivo, chamá-lo de mentiroso.

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