Desafio maior para o Banco Central

Inflação disparada e economia enfraquecida tornam mais complicadas próximas decisões sobre política de juros

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 03h00

Superada a marca de 10% em 12 meses, a grande dúvida sobre a inflação brasileira, neste momento, é se o Banco Central tentará levá-la à meta de 3,5% em 2022, como prometeu várias vezes o presidente da instituição, Roberto Campos Neto. Interrogado sobre o assunto num evento do Bank of America, nesta semana, ele reafirmou o compromisso de buscar a meta, mas sem mencionar um prazo. As próximas ações e o cronograma, acrescentou, serão discutidos na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) prevista para 7 e 8 de dezembro. Na última reunião, em outubro, o Comitê acrescentou 1,5 ponto à taxa básica de juros, elevando-a para 7,75% e anunciando um aperto maior na estratégia de ajuste. Os dois aumentos anteriores haviam sido de 1 ponto cada um.

Desde a última decisão as expectativas pioraram. A inflação prevista para 2021 chegou a 10,12%, a projeção para 2022 atingiu 4,96% e as taxas estimadas para 2023 e 2024 também se elevaram, ficando todos os números acima das metas desses anos. Também têm piorado as previsões de crescimento econômico. Para o próximo ano a mediana das projeções caiu para 0,70% e alguns bancos já admitem a hipótese de recessão.

Cada nova pesquisa confirma o cenário ruim e justifica as preocupações quanto aos próximos meses. A nova prévia da inflação apontou uma taxa de 1,17%, a maior para um mês de novembro desde 2002 (2,08%). A variação chegou a 9,57% no ano e a 10,73% em 12 meses. Os dados são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) e foram coletados entre 14 de outubro e 12 deste mês.

Os preços aumentaram nos nove grupos de bens e serviços pesquisados. Puxada pela alta da gasolina, a maior variação ocorreu no grupo Transportes, daí resultando o maior impacto (0,61 ponto porcentual) na formação do índice geral. Mas seria enganoso reeditar a história do vilão da inflação. Em alguns itens a piora pode ser mais sensível, mas todos os setores estão contaminados pelo vírus inflacionário.

Como a retomada econômica é frágil e as projeções são sombrias, o Copom deverá considerar se vale a pena um aperto maior da política de juros, com maior entrave ao crédito e aos negócios. Mas a escolha pode ser especialmente complicada, nesta altura, porque também a inflação atrapalha o crescimento, roendo os ganhos de consumidores já empobrecidos. Em 12 meses o custo de alimentos e bebidas subiu 10,46%, os combustíveis domésticos (incluído o gás) encareceram 38,44% e a conta de luz aumentou 31,28%. Juros maiores serão inúteis para conter os custos de gás, energia elétrica, diesel e gasolina, e será conveniente pesar também esse ponto.

O presidente Bolsonaro poderia pelo menos cuidar de alguns importantes fatores inflacionários, como o desarranjo das contas públicas, a incerteza sobre a evolução das condições fiscais e, de modo geral, a insegurança causadora da supervalorização do dólar. Para isso, no entanto, o presidente deveria entender sua função e as consequências econômicas de seus atos e, claro, dar importância a esses fatos.

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