Desafios para a biodiversidade

Se perder a janela de oportunidades, Brasil atrairá o opróbrio internacional

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 03h00

A pandemia de covid-19 expôs agudamente os riscos do desequilíbrio crônico na relação entre os seres humanos e a natureza. É um lembrete mortífero das possíveis consequências da contínua degradação dos ecossistemas globais.

A fim de frear a perda de biodiversidade, a comunidade internacional adotou em 2010 o Plano Estratégico de Biodiversidade 2011-2020 de Aichi. Segundo a avaliação da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, detalhada no seu Panorama da Biodiversidade Global, de lá para cá houve um progresso sensível, mas insuficiente.

Entre os avanços que merecem destaque está a redução significativa da taxa de desmatamento: cerca de um terço em comparação com a década anterior. Também houve uma expressiva expansão de áreas protegidas: entre 10% e 15% na terra e 3% e 7% no mar entre 2000 e 2020. Em relação às “áreas-chave” para a biodiversidade o crescimento foi ainda maior: de 29% a 44%.

Além das áreas protegidas, o número de extinções foi reduzido por uma série de medidas, como restrições à caça e a regeneração da biodiversidade por meio da reintrodução de espécies perdidas e o controle da invasão de espécies alienígenas aos biomas. Sem essas medidas, estima-se que a extinção de pássaros e mamíferos na década passada teria sido duas a quatro vezes maior.

O Panorama aponta oito áreas de transição interdependentes para um futuro sustentável: conservação de florestas e o bom uso das terras; a garantia dos fluxos de água fresca para a natureza e para os humanos; proteção dos ecossistemas marinhos e a pesca sustentável; agricultura sustentável; diversidade e segurança alimentar; infraestrutura verde para as cidades; processamentos industriais baseados em soluções naturais e transição dos combustíveis fósseis para os verdes; e uma abordagem sanitária integrada para promover ambientes naturais e humanos saudáveis.

O Brasil, guardião de uma das maiores biodiversidades do mundo e uma potência agropecuária, pode exercer um protagonismo decisivo. Dada a importância que a questão ambiental assumiu aos olhos do mundo, perder essa janela de oportunidades não o deixará só numa posição de neutralidade, mas atrairá o opróbrio internacional. Sua responsabilidade é grande e a missão é nobre. Cumpri-la exigirá grandes investimentos na técnica (pesquisa e desenvolvimento), mas, sobretudo, um debate público bem informado e equilibrado.

Após 200 anos de revolução industrial, a última geração abriu os olhos e o coração para a ameaça ao meio ambiente. Algum grau de hipersensibilidade ao problema, ainda que não inevitável, é natural. Aqui e ali se nota certo desequilíbrio entre as ideias e os fatos; as intenções e as práticas; as ameaças e os temores.

O próprio Panorama da ONU é um exemplo. Seus autores o abrem com palavras de ordem ameaçadoras e alarmantes: “A humanidade está parada numa encruzilhada em relação ao legado para as futuras gerações. A biodiversidade está declinando a uma taxa sem precedentes, e as pressões que orientam esse declínio estão se intensificando”. Mas, apenas alguns parágrafos adiante, o próprio Panorama cataloga evidências que temperam – quando não contradizem – essas advertências tão aterradoras.

O declínio, é verdade, continua, e, a rigor, nenhuma das 20 Metas de Biodiversidade de Aichi foi plenamente atingida. Seis, contudo, foram parcialmente atingidas. O detalhe é mais animador: dos 60 elementos específicos que compõem as Metas, 7 foram totalmente cumpridos e em 38 houve progresso. Apenas em 13 elementos não houve qualquer progresso – em um ou outro houve um efetivo afastamento da meta –, e dois não puderam ser mensurados. Assim, se o progresso foi insuficiente, ao menos não houve retrocessos expressivos. Dizer, portanto, que a humanidade está “parada numa encruzilhada” pode ter um valor motivacional, mas não parece muito exato. Ao que tudo indica, ela já passou deste ponto e está no bom caminho. Certamente não na velocidade desejada. Mas nesse caso o desafio não é tanto aprumar o passo, e sim acelerá-lo.

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