Descompasso com o mundo

O desempenho econômico do País segue inferior ao da maior parte dos emergentes e avançados

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 03h00

Contrariando mais uma vez o ufanismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, países desenvolvidos e grandes emergentes voltam a exibir mais dinamismo que o Brasil e maior potencial produtivo. Chegou a 5,5% no ano passado o crescimento médio dos 38 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Foi uma taxa mais que suficiente para compensar, no conjunto, a perda de 4,6% ocasionada em 2020 pela pandemia. A recuperação brasileira também deve ter compensado com folga o recuo de 3,9% do ano anterior. A última estimativa, produzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta uma expansão de 4,7%, suficiente para o retorno ao patamar pré-covid, mas claramente modesta para um país de seu grupo.

Outros emergentes contabilizaram perdas maiores que as do Brasil no primeiro ano da pandemia, mas experimentaram retomadas mais vigorosas. A Colômbia cresceu 10,6% em 2021, depois de uma queda de 7% no ano anterior. O Produto Interno Bruto (PIB) chileno passou de um recuo de 5,8% em 2020 para um avanço de 10,2% no ano seguinte.

Neste ano a economia chilena deve crescer, segundo se estima, 3,5%. As expectativas do crescimento colombiano estão em torno de 4%. Em janeiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou projeções de expansão de 4,4% para o produto global, de 3,9% para as economias avançadas, de 4,8% para as emergentes e em desenvolvimento e de 0,3% para a brasileira. A estimativa para o PIB brasileiro coincide com a do mercado, registrada na pesquisa Focus, do Banco Central. Em 2023, segundo o Fundo Monetário Internacional a economia do Brasil deverá crescer 1,6%, ficando abaixo, de novo, da média mundial (3,8%) e daquela estimada para países emergentes e em desenvolvimento (4,7%).

Não se trata de implicância. Os economistas do FMI, assim como os de outras instituições multilaterais e seus colegas do mercado, acompanham a atividade brasileira e conhecem os desajustes e deficiências do País. A inflação e o desemprego no Brasil são maiores que os observados na maior parte do mundo. Isso também é visível quando se compara a dívida pública brasileira com as de outros emergentes. A desvantagem é igualmente ostensiva quando se comparam os potenciais de crescimento, dependentes de investimento em capital fixo, em educação e em tecnologia.

O Brasil está preparado para crescer, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, em reunião virtual de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20), na semana passada. Para justificar sua afirmação, ele mencionou uma agenda de reformas, de parcerias com o setor privado e de melhoria do ambiente de negócios.

Mas só se concluiu a reforma da Previdência, já avançada no mandato anterior. As propostas do Executivo para mudanças tributárias e administrativas são amplamente insatisfatórias e pouco se fez para elevar o potencial de crescimento, num ambiente de inflação elevada e péssima gestão fiscal. No FMI, na OCDE e no mercado o mundo de fantasia do ministro Guedes continua ignorado.

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