Desconfiança e esperança na COP-26

Os compromissos assumidos pelo Brasil na conferência do clima foram importantes. Mas a questão central é: qual a credibilidade de quem faz as promessas?

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 03h00

Muito além de um governo, há um país inteiro comprometido com a preservação ambiental e o combate às mudanças climáticas. É o que, por ora, se pode concluir da participação do Brasil na COP-26, a Conferência do Clima da ONU, em Glasgow.

Apesar dos esforços do presidente Jair Bolsonaro – um notório agressor não apenas da chamada causa ambiental, como também dos ambientalistas – para dilapidar o soft power do Brasil na seara ambiental construído ao longo de décadas, a imagem do País no fórum internacional não foi tão deteriorada como se esperava. Temendo as duras críticas que decerto receberia por sua postura negligente e destrutiva em relação ao meio ambiente, Bolsonaro decidiu não ir à COP-26, mas o Brasil foi bem representado por 10 dos 22 governadores de Estado que compõem o Consórcio Brasil Verde, além de empresários, banqueiros, acadêmicos e organizações não governamentais.

Essa união de esforços entre governos subnacionais e a sociedade civil em prol da preservação do meio ambiente transmitiu um claro recado ao mundo civilizado: o Brasil é maior do que Bolsonaro e mais consciente de sua parcela de responsabilidade pela redução da emissão de gases que provocam o efeito estufa do que faz parecer o governo de turno. Diante da inação da administração federal, quando não de sua ação deletéria, representantes da sociedade brasileira apresentaram na COP-26 planos concretos para desenvolver a Região Amazônica de forma sustentável, combater os crimes ambientais e participar mais ativamente de um futuro mercado global de carbono. 

Evidentemente, a sociedade civil pode muito, e tem feito o que está ao seu alcance para se contrapor ao descalabro da administração pública federal, mas não pode tudo. O governo central ainda é chave para a formulação e implementação de políticas públicas ambientalmente responsáveis.

A bem da verdade, o governo federal não esteve totalmente ausente da COP-26. Importantes compromissos oficiais foram assumidos. Em discurso transmitido no pavilhão do Brasil no fórum do clima, Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciaram um aumento na previsão de cortes na emissão de gases de efeito estufa, dos atuais 43% para 50% até 2030, um compromisso firmado no Acordo de Paris, em 2015. Especialistas alertam, no entanto, que esse aumento, na realidade, não passa de uma “pedalada climática”. O governo federal alterou a base de cálculo para aplicação do novo porcentual. Inicialmente, tomava-se como parâmetro para redução os 2,8 bilhões de toneladas de gases emitidas em 2005. Agora, estima-se que tenham sido emitidos 2,4 bilhões de toneladas de gases na atmosfera naquele ano. Ou seja, na prática, não haveria aumento da meta brasileira assumida no Acordo de Paris.

Pressionado pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE), o Brasil também assumiu o compromisso de reduzir em 30% a emissão de gás metano, em relação ao patamar de 2020, até o fim desta década. O presidente americano, Joe Biden, e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, acreditam que reduzir a emissão de metano, o segundo gás que mais provoca o efeito estufa, atrás do CO2, seja a forma mais rápida de reduzir o aquecimento global. O Brasil tem cerca de 220 milhões de cabeças de gado e, portanto, é um dos maiores emissores de gás metano do planeta. Desse modo, atingir a meta pactuada significa reduzir o consumo de carne vermelha no País ou investir em rações que, por meio de avanços tecnológicos, reduzam a emissão de metano na pecuária.

Em suma, os compromissos assumidos pelo Brasil na COP-26 foram importantes. As metas são arrojadas. A adesão do País aos pactos firmados em Glasgow é muito positiva. Mas o papel aceita tudo. A questão central continua sendo a mesma desde a Cúpula de Líderes sobre o Clima organizada por Biden, em abril deste ano, e da qual Bolsonaro participou. Qual a credibilidade de quem faz as promessas? O histórico do governo federal em relação à proteção do meio ambiente fala por si só. É ver para crer.

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