Desconfiança no presidente

Com apenas três meses de mandato, Jair Bolsonaro já é o presidente da República com o pior índice de satisfação popular no trimestre inicial de governo dos últimos 25 anos

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2019 | 03h00

Com apenas três meses de mandato, Jair Bolsonaro já é o presidente da República com o pior índice de satisfação popular no trimestre inicial de governo dos últimos 25 anos. De acordo com pesquisa do Ibope divulgada na quarta-feira passada, 34% dos entrevistados avaliam que seu governo é “bom ou ótimo”. Em janeiro, esse porcentual era de 49% e no mês passado, de 39%.

A acentuada queda de 15 pontos na avaliação de desempenho do governo em apenas três meses – período em que, normalmente, um presidente recém-eleito experimenta a chamada “lua de mel” com a opinião pública – revela que Jair Bolsonaro vem perdendo respaldo em razão de seus próprios erros, pois não enfrenta uma oposição organizada, responsável e combativa. Com inteligência, boa articulação com o Congresso e aguçado senso de prioridade, o Executivo teria menos dificuldade para aprovar matérias importantes para o País. Mas o governo enfrenta problemas mesmo na votação de projetos menos controvertidos, sofrendo algumas derrotas importantes.

O presidente Jair Bolsonaro também amarga a insatisfação precoce da sociedade não pelo que tem feito, mas pelo que tem deixado de fazer. A inação é uma das marcas do início de seu governo, ao menos no que concerne às prioridades nacionais. O que dizer da defesa titubeante que o presidente faz da reforma da Previdência, projeto que definirá o seu governo? Enquanto se perde em meio a tolices que só servem para animar a balbúrdia nas redes sociais, o presidente Bolsonaro abdica de seu papel de conduzir a Nação como um verdadeiro líder na discussão das questões que têm o condão de mudar o País. A população parece atenta a esse comportamento, como revelou a pesquisa.

Popularidade não é e nem deve ser, por si só, um objetivo a ser alcançado. Quando um governo faz o que tem de ser feito e consegue ser popular, tanto melhor. Mas não raro os governantes que a História alçou à categoria de estadistas tomaram decisões que, no calor da hora, eram bastante impopulares. Só se revelaram acertadas para a maioria anos ou décadas depois. Jair Bolsonaro tem conseguido aumentar sua impopularidade mesmo não se engajando com convicção em temas impopulares.

A título de exemplo, tome-se a já citada reforma do sistema previdenciário. Trata-se de um tema que gera tensões em todos os países onde é discutido. Porém, hoje há um clima muito mais favorável para sua aprovação no Brasil do que havia dois anos atrás. Há consenso na parcela responsável da sociedade – e essa parcela tem crescido, como revelam pesquisas de opinião – quanto à urgência da medida. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro aproveita muito pouco desse clima propício e prefere se dedicar de corpo e alma a uma gama de assuntos que servem tão somente para inflamar sua rede de apoiadores nas redes sociais, quando deveria concentrar energia na defesa mais enfática e convincente da chamada “Nova Previdência”.

O Ibope também registrou uma queda consistente na confiança pessoal que Jair Bolsonaro inspira. Em janeiro, 62% dos entrevistados disseram confiar no presidente que acabava de iniciar seu mandato. A confiança caiu para 55% em fevereiro e para 49% em março.

Esse dado serve para indicar que o presidente Bolsonaro precisa, de uma vez por todas, deixar para trás o discurso da campanha eleitoral e assumir, de fato, como o presidente de todos os brasileiros, e não apenas dos convertidos à sua cartilha ideológica. Sua eleição, em grande medida, se deu por uma compreensível aversão de uma vasta parcela da sociedade a tudo o que o PT representa. Marcas profundas dos desmandos e desatinos dos governos petistas calam fundo na alma nacional e impõem ações vigorosas do atual governo a fim de cicatrizá-las. Pelo que se vê, milhões de brasileiros esperam essas ações de Jair Bolsonaro. Até dar sinais de que está comprometido com as medidas que levarão à retomada do crescimento econômico e da geração de emprego e renda, sua impopularidade provavelmente aumentará ainda mais.

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