Desemprego alto e resistente

Condições de emprego pouco melhoraram no fim do ano e a inflação seguiu desgastando o poder de compra

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 03h00

Com 12 milhões de desempregados, 4,8 milhões de desalentados e 7,4 milhões de subocupados, o Brasil completou o trimestre final de 2021, ano da recuperação celebrada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como exemplo de vitalidade para o mundo. O desemprego, equivalente a 11,1% da força de trabalho, foi menor que no trimestre anterior, quando estava em 12,6%. Mas essa taxa ainda foi mais que o dobro da média (5,4%) registrada em dezembro nos 38 países da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, formada por potências capitalistas desenvolvidas e emergentes. Além disso, parte da redução do desemprego no quarto trimestre foi sazonal, isto é, típica do período anterior às festas de fim de ano, como observou a coordenadora da pesquisa, Adriana Beringuy.

As condições do mercado também foram ruins para a maior parte dos ocupados. Quem conseguiu ou preservou algum ganha-pão teve de viver com orçamento mais comprimido. O rendimento médio habitual de quem exerceu algum trabalho ficou em R$ 2.447,00. Esse valor foi 3,6% menor que o do trimestre anterior e 10,7% inferior, descontada a inflação, ao de um ano antes, quando o País superava os efeitos iniciais da pandemia.

O desgaste do poder de compra foi causado em grande parte pela alta dos preços. A inflação acumulada no ano passado, de 10,06% pelos dados oficiais, foi muito superior à observada na maior parte dos países avançados e emergentes. Recorde em 30 anos, a média da OCDE chegou a 6,6%. No Grupo dos 20 (G-20), atingiu 6,1%, graças, principalmente, às contribuições lamentáveis do Brasil, da Argentina (50,9%) e da Rússia (8,4%). Na China, maior economia integrante do G-20, os preços de bens e serviços consumidos aumentaram 1,5%. Na Indonésia, 1,9%.

Alguns detalhes tornam mais feio o quadro do mercado de trabalho. Somando-se os desocupados, os desalentados, os subocupados por insuficiência de horas de trabalho e os indivíduos capazes de trabalhar, mas ainda fora do mercado, chega-se a 28,3 milhões de subutilizados. Esse grupo, 7% menor que o do trimestre anterior, correspondeu a quase um quarto (24,3%) da força de trabalho em princípio disponível.

O aumento do trabalho por conta própria contribuiu de forma significativa para a redução do desemprego. Os trabalhadores autoempregados, 25,9 milhões, foram 1,9% mais numerosos que no trimestre julho-setembro. A média anual, 24,9 milhões, superou por 11,1% a do ano anterior.

Mas essa ocupação foi amplamente caracterizada pela informalidade e pela baixa remuneração. No quarto trimestre, os empregados por conta própria eram 27,1% das pessoas ocupadas. Em São Paulo eram 23,7%. As maiores taxas ocorreram em áreas com economias menos diversificadas, como Amapá (38%), Amazonas (36,2%), Piauí (35%) e Roraima (33,6%). Quantos desses autoempregados teriam preferido um emprego modesto, mas passavelmente seguro e com carteira assinada?

As projeções de crescimento econômico neste ano raramente superam 0,5%, sugerindo condições de emprego ainda muito ruins.

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