Desencontros entre educação e trabalho

Discrepâncias entre o que a sociedade exige e o que a educação oferece preocupam

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 03h00

O universo do trabalho vive transformações sem precedentes. Os avanços tecnológicos criam carreiras insuspeitadas com a mesma velocidade com que pulverizam ofícios tradicionais. Ao mesmo tempo, os jovens estudam mais tempo do que qualquer outra geração na história, e ingressam na vida profissional consideravelmente mais qualificados do que seus pais. Mas estão mais preparados para as ofertas e demandas do mercado de trabalho? Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), após a análise de quase 20 anos do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o maior banco de dados educacional do mundo, a resposta é “Não”.

A pesquisa Emprego dos sonhos: as aspirações dos adolescentes e o futuro do trabalho mostra que as expectativas de carreira mudaram pouco em duas décadas. Na verdade, concentraram-se fortemente em poucas carreiras. Segundo o levantamento de 2018 do Pisa, feito com meio milhão de estudantes de 15 anos, 47% dos meninos e 53% das meninas de 41 países disseram que esperam trabalhar em uma de apenas 10 carreiras – um aumento de 8% para os meninos e 4% para as meninas desde o início do século.

“Causa preocupação que mais jovens do que antes parecem escolher seu trabalho dos sonhos de uma pequena lista dos ofícios mais populares e tradicionais, como professores, advogados ou administradores de empresas”, disse o diretor educacional da OCDE, Andreas Schleicher. “Muitos adolescentes ignoram os novos tipos de trabalho que estão surgindo, particularmente como resultado da digitalização.”

No Brasil, algo entre 66% e 75% dos estudantes expressam interesse por apenas 10 carreiras. Enquanto isso, em países com tradição de treinamento vocacional para professores, como a Alemanha ou a Suíça, este índice não chega a 40%, refletindo bem melhor os padrões atuais do mercado. “De muitas maneiras, parece que os sinais do mercado de trabalho não estão chegando aos jovens: trabalhos acessíveis, bem remunerados e com futuro não parecem capturar a atenção dos adolescentes”, disse Schleicher. No Japão e na Eslováquia, cerca de metade das carreiras antecipadas pelos jovens sofre risco de ser automatizada.

Essas discrepâncias entre aquilo que a sociedade e a economia exigem e aquilo que a educação fornece são preocupantes e revelam que mais educação não implica automaticamente melhores empregos e qualidade de vida.

A pesquisa mostra ainda o quanto as aspirações dos jovens podem ser distorcidas por sua origem social. Um em cada três adolescentes de classes baixas com alto desempenho no Pisa não aspira a um diploma universitário nem a um emprego para o qual o certificado é a porta de entrada. Isso significa que entre os jovens com alto desempenho os pobres têm quatro vezes menos chances de nutrir altas aspirações do que seus pares de classes mais privilegiadas. Por outro lado, um em cada cinco jovens dos países da OCDE está negativamente desajustado em relação ao objeto de suas expectativas, ou seja, o nível de educação e qualificação ao qual ele aspira é inferior ao exigido pela carreira de sua predileção.

O estudo evidencia uma fratura entre o mundo do trabalho e o da educação, e entre a realidade objetiva do mercado e a percepção subjetiva dos jovens, advertindo que os sistemas educacionais precisarão ir além dos métodos tradicionais. “A nova geração de cidadãos exige não só fortes habilidades acadêmicas, mas também curiosidade, imaginação, empatia, empreendedorismo e resiliência”, disse Charles Yidan, um dos responsáveis pela pesquisa. “Nunca antes”, conclui ele, “uma orientação eficaz de carreira foi tão importante e nunca antes foi tão grande a necessidade dos empregadores se engajarem em um trabalho com as escolas para ajudar os jovens a compreender os empregos e carreiras e para ajudar os professores a trazerem a educação para a vida.”

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