Desigualdade de oportunidades

Censo Escolar de 2021 aponta para um futuro do País desafiador, moldado fortemente pela desigualdade

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 03h05

O Censo Escolar de 2021 revela um cenário especialmente desafiador para o futuro das crianças. Se a igualdade de oportunidades – dimensão necessária da justiça – já era uma meta distante, a pandemia aumentou ainda mais as disparidades sociais. Segundo o levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o País perdeu mais de 650 mil matrículas de estudantes na educação infantil no ano passado, na comparação com 2019. É um contingente muito grande de crianças fora da escola em período fundamental de seu desenvolvimento.

Seja qual for o nível socioeconômico das famílias, a saída da escola tem sempre efeitos negativos. Durante a pandemia, por questões sanitárias ou de ordem econômica, muitos pais tiraram seus filhos de escolas infantis particulares. Entre 2019 e 2021, houve queda de 21,6% nas matrículas em creches da rede privada. De toda forma, os efeitos da pandemia foram especialmente sentidos nas famílias mais pobres – mais vulneráveis à crise socioeconômica e mais necessitadas da atuação do poder público. Para muitas crianças, a refeição mais saudável e nutritiva do dia é a merenda escolar.

Essa situação conduz a uma difícil constatação, bem como a um prognóstico nada animador. Os números do Censo Escolar de 2021 mostram que o País não tem sido capaz de cuidar adequadamente de suas crianças em fase fundamental de suas vidas. Simplesmente, falhou-se naquela que é a principal tarefa de uma sociedade: prover as condições de formação e desenvolvimento das novas gerações. E tal quadro remete necessariamente ao porvir. Ao deixar tantas crianças de fora da escola, o País contribui para a construção de um futuro moldado pela desigualdade, com muitas pessoas tendo sofrido, desde cedo, privações que reduziram suas oportunidades.

Há outro dado preocupante sobre as disparidades educacionais. Na rede privada, 70% das escolas não retomaram as atividades presenciais em 2020. Na rede estadual, a taxa foi de 85,9% e na municipal, de 97,5%. As famílias mais vulneráveis foram as mais prejudicadas.

A desigualdade também foi notada no acesso às aulas a distância. Em 2020, a maioria dos municípios (2.449) não proporcionou a seus alunos nenhuma aula ao vivo por meio da internet. Enquanto muitos alunos da rede particular tiveram aulas nessa modalidade, a maior parte dos estudantes da rede pública viu a pandemia expulsá-los da sala de aula, presencial e virtual.

É desolador que o País tenha retrocedido justamente naquilo que talvez seja seu principal calcanhar de Aquiles, a desigualdade de oportunidades desde a primeira infância. Deve-se advertir, no entanto, que, apesar das dificuldades, o Censo Escolar de 2021 também mostra que é possível avançar. Por exemplo, em razão de políticas educacionais estaduais bem implementadas, cresceu o porcentual de alunos do ensino médio em tempo integral: de 8,4% em 2017 para 16,4% em 2020. Esta é a lição do Censo. Os desafios são imensos, mas o bom trabalho produz bons resultados. Não há tempo a perder.

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