Despencando na crise

BC mostra impacto inicial da pandemia no conjunto da atividade econômica

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 03h00

O primeiro grande tombo da economia brasileira, desde a chegada do novo coronavírus, foi de 5,9%, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Essa foi a queda no mês de março, quando o País começou a reagir aos sinais da pandemia. Com o início do isolamento, a redução do consumo e a perda de ritmo na maior parte dos setores, a atividade caiu para o nível mais baixo desde março de 2009, quando o Brasil enfrentava a recessão causada pelas quebras no mercado financeiro internacional. Numa de suas bravatas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a palavra marolinha para descrever o choque externo. O efeito foi mais parecido com o de uma ressaca, mas sem as mortes trazidas pela “gripezinha” mencionada pelo presidente Jair Bolsonaro. Como no Hemisfério Norte, os primeiros efeitos da covid-19 no Brasil foram prenúncios, até subestimados inicialmente, de milhares de mortes e de grandes perdas econômicas.

Os estragos agora previstos para a economia brasileira são muito maiores que aqueles sugeridos pelo IBC-Br em seus dados trimestrais e anuais. Segundo esses dados, a atividade no primeiro trimestre foi 1,95% menor que nos três meses finais de 2019. A comparação com o período janeiro-março do ano passado mostra um recuo de 0,28%. Em 12 meses ainda há um avanço de 0,75%, menor que o apontado em comparações anteriores, mas com certeza muito melhor que os números esperados nos levantamentos seguintes.

O balanço econômico oficial do primeiro trimestre deve ser conhecido no dia 29, data programada para divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses dados são publicados a cada três meses. Os números do IBC-Br, apresentados mensalmente, são menos detalhados e menos precisos, mas normalmente permitem uma boa percepção da tendência e do ritmo dos negócios.

A tendência é aquela mostrada pela queda mensal de 5,9% em março. A piora combina com os últimos números setoriais. Em março a produção da indústria foi 9,1% menor que no mês anterior, depois de ter aumentado 0,5% em fevereiro. Pela primeira vez em oito anos a queda ocorreu nos 15 locais cobertos pela pesquisa mensal. Ainda em março as vendas do comércio varejista caíram 2,5%, numa baixa atenuada pelo desempenho dos supermercados, onde as famílias se abastecem dos itens menos dispensáveis. O recuo nos serviços chegou a 6,9%, no pior resultado da série iniciada em janeiro de 2011.

O agravamento do quadro foi evidenciado pelos primeiros indicadores de abril. A fabricação de veículos foi a mais baixa da indústria automobilística desde 1957. Foram produzidas 1,8 mil unidades, soma equivalente a um dia de trabalho normal numa instalação como a da Fiat em Betim (MG). Estoques acumularam-se na maior parte das indústrias e do comércio, chegando a níveis próximos dos observados na recessão de 2015.

A Confederação Nacional do Comércio calcula queda anual de vendas de R$ 9,7 bilhões para R$ 5,6 bilhões. No mercado, a mediana das projeções do PIB apontava recuo de 4,11% em 2020, segundo a pesquisa Focus divulgada no dia 11 pelo BC. Essa pesquisa envolve consultas a cerca de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Alguns grandes bancos e escritórios estimam, no entanto, desempenho bem pior, com quedas superiores a 7%. No dia 13 o governo federal apresentou sua nova estimativa – uma baixa de 4,7%. Para a produção industrial a mediana das previsões, segundo aquela pesquisa Focus, é de recuo de 3%. Esse número pode parecer otimista, mas qualquer queda será desastrosa, porque a base de comparação, 2019, é muito ruim.

O efeito mais doloroso da crise começa a aparecer nos indicadores de emprego. No primeiro trimestre a desocupação, de 12,2% da força de trabalho, foi 1,3 ponto maior que a dos três meses finais de 2019. Eram 12,9 milhões de desempregados e o número, tudo indica, aumentou em abril. Tem aumentado em outros países, mas nenhum outro presidente pergunta “e daí?” quando lhe falam das mortes na pandemia.

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