Dias difíceis virão

As autoridades devem ter coragem para fazer o que tem de ser feito para o controle da covid

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 03h00

A Nação terá semanas muito duras pela frente, talvez as mais difíceis em muitos anos. Uma combinação de fatores tende a agravar ainda mais a situação epidemiológica do País, que já é dramática. Sistemas de saúde das redes pública e privada que ainda não entraram em colapso estão na iminência de colapsar.

Seis especialistas ouvidos pelo Estado – Gonzalo Vecina Neto, Renato Kfouri, Miguel Nicolelis, Roberto Kraenkel, Márcio Bittencourt e Mellanie Fontes-Dutra – foram unânimes na defesa de um “lockdown de verdade”, ainda que com variações de cidade para cidade, a fim de conter a disseminação desenfreada do novo coronavírus e o esgotamento da capacidade de atendimento dos hospitais. À rede de TV CNN, a infectologista Thaís Guimarães, do Hospital das Clínicas de São Paulo, prevê um “cenário de guerra” nos próximos dias, com pessoas morrendo por covid-19 dentro de suas casas ou na entrada de hospitais superlotados.

Estes alertas não devem ser tomados como mau augúrio por cidadãos e tampouco por governantes. Se houve quem mais acertou do que errou em seus prognósticos desde que a pandemia se instalou no País, foram os médicos e cientistas.

A cepa P.1, como foi denominada a variante do novo coronavírus detectada primeiramente em Manaus (AM), circula sem qualquer tipo de controle no País. Pesquisadores da Fiocruz descobriram que esta variante aumenta a carga viral em dez vezes e é duas vezes mais contagiosa. Junte-se a isto a baixa adesão ao isolamento social em muitas cidades, a falta de vacinas na quantidade que o País precisa e ninguém menos do que o presidente da República exortando a população a boicotar as únicas medidas sanitárias aptas a conter o espalhamento do vírus e está formada a tempestade que ora paira sobre o País.

A hora é de união nacional para salvar vidas. O horror de hoje e dos próximos dias, é importante destacar, reflete a inação de governantes e o mau comportamento de cidadãos de algumas semanas atrás. De uns e de outros, espera-se mais responsabilidade, coragem e espírito público para que a cada ciclo de 14 dias não se arme uma bomba viral sempre prestes a explodir e matar. O País vive uma tragédia sem precedentes. Há mais de um mês, morrem, em média, 1,2 mil pessoas por covid-19 todos os dias. Isto tem de acabar.

Passado um ano de uma pandemia que já custou a vida de quase 255 mil brasileiros, é desalentador observar que ainda há quem insista em ignorar as recomendações básicas das autoridades de saúde. Ou pior, quem insista em afrontá-las e desqualificá-las, como faz Jair Bolsonaro, dia sim e outro também, em seu doentio descaso pela vida de seus governados.

É inacreditável que, diante deste quadro dantesco, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tenha de ser compelido a agir pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No sábado passado, a ministra Rosa Weber decidiu em caráter liminar que o Ministério da Saúde custeie a habilitação de leitos de UTI destinados para pacientes com covid-19 em São Paulo, Bahia e Maranhão. E isto é o mínimo necessário para salvar doentes de hoje. Qual o plano do intendente para evitar mal ainda maior no futuro próximo? Ele não sabe.

O mais inepto dos ministros da Saúde de que se tem notícia também precisa ser provocado para agir pelo Congresso. Há poucos dias, vale lembrar, o chefe do Poder Legislativo, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), teve de assumir o lugar que cabe a Pazuello na mesa de negociações com dois fabricantes de vacinas, os laboratórios Pfizer e Janssen. O Brasil, como duramente sabe a Nação, precisa o quanto antes aumentar a quantidade de vacinas à disposição da população. Hoje não há doses sequer para garantir a imunização de todos os que fazem parte dos grupos prioritários.

Sem vacinas, sem vagas de UTI suficientes para atender à demanda e sem um presidente da República que aja como tal, cabe a cada um dos cidadãos agir com responsabilidade. E a cada governador e prefeito, fazer com coragem o que tem de ser feito.

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