Dinossauros em Havana

Convescote de membros de partidos de esquerda seria apenas cômico, se não condenasse povos inteiros à pobreza crônica

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 03h00

Um desavisado que desembarcasse em Havana por esses dias poderia pensar que os dinossauros não foram extintos. Pela capital cubana desfilaram representantes de partidos políticos de esquerda - entre os quais, claro, o PT - e movimentos “populares” de 86 países. Esses seres exóticos, todos muito bem alimentados, participavam de um convescote intitulado - preparem o fôlego - Encontro Anti-imperialista de Solidariedade, pela Democracia e contra o Neoliberalismo.

Essa esquerda caquética julga ainda viver no tempo em que, sob o patrocínio da União Soviética, tinha alguma capacidade de mobilização com suas palavras de ordem contra o capitalismo. Hoje - quando até a China comunista prefere o investimento privado e por isso prospera, ao passo que as socialistas Cuba e Venezuela maltratam seus cidadãos, privando-os do básico -, cobrar mobilização em defesa de regimes estatistas e ditatoriais a pretexto de enfrentar o “imperialismo ianque” seria apenas cômico, se não condenasse povos inteiros à pobreza crônica.

A declaração final do tal encontro é um primor de cinismo, a começar pela menção à “democracia” num encontro protagonizado pelo ditador de honra de Cuba, Raúl Castro, e pelo autocrata da Venezuela, Nicolás Maduro. “Vivemos um momento singular na história”, diz o texto, para em seguida mencionar que “os povos nas urnas, nas ruas e nas redes sociais demonstram, com seu voto e seus protestos, o esgotamento da ofensiva imperial conservadora e restauradora neoliberal da direita oligárquica” - ao que se segue uma série de considerações sobre o “capital transnacional”, o “poder midiático” e o “fundamentalismo religioso”, tudo, naturalmente, em conluio para “destruir a vida em harmonia com a natureza” e “colocar em perigo a espécie humana”. Nada menos.

A declaração começa pela inevitável “solidariedade” a Cuba e pela denúncia do “criminoso e genocida” bloqueio norte-americano àquele país. Mais adiante aparece a “firme solidariedade” com a “Revolução Bolivariana e Chavista, a união cívico-militar do povo e seu legítimo presidente Nicolás Maduro” na Venezuela.

Depois de demonstrar submissão a duas ferozes ditaduras, o encontro se declara mobilizado para reclamar a “imediata liberação do companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, vítima da judicialização da política, que tem como objetivo a perseguição e o encarceramento de líderes políticos de esquerda e progressistas latino-americanos”. Ou seja, enquanto denuncia a “perseguição política” a um condenado por corrupção num processo legítimo, os esquerdistas louvam a “democracia” em países que rotineiramente encarceram opositores e calam a imprensa.

Nessa linha, não poderia faltar menção à contestada reeleição do caudilho boliviano, Evo Morales, festejada em Havana como prova do sucesso das “medidas em benefício popular” tomadas pelo governo. Os protestos da oposição, que denunciou fraude, foram tratados na declaração como “tentativa de golpe de Estado”.

A patacoada inclui um chamamento à “guerra cultural e simbólica que tem como espaço em disputa a subjetividade do ser humano”, seja lá o que isso signifique, “articulando a batalha midiática na internet e nas redes sociais digitais, alimentando as redes da verdade frente à ofensiva da mentira do imperialismo neoliberal”. A tal “guerra” no mundo virtual, em que basta digitar alguns caracteres, é conveniente para quem não é muito chegado ao trabalho e acha que pode fazer a “revolução” no conforto de casa.

Felizmente, os esquerdistas reunidos em Havana para celebrar ditaduras sanguinárias e pregar revoluções de fancaria são vistos cada vez mais como fósseis paleolíticos - cuja exumação só interessa aos extremistas de direita que veem comunistas em toda a parte. Mas não custa lembrar que, para que esse discurso radical não prospere e seduza os incautos, é preciso que os verdadeiros democratas, à esquerda e à direita, trabalhem em favor da revalorização da política, única forma genuinamente democrática de superar os impasses da sociedade.

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