Dismorfia diplomática

O que o presidente Bolsonaro vê como 'autodeterminação', 'altivez' e 'ato de soberania' de um gigante diplomático adormecido até sua posse, não passa da pequenez da submissão aos interesses dos Estados Unidos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 03h00

No que concerne às relações exteriores, o Brasil é acometido de uma espécie de “dismorfia reversa” aos olhos do presidente Jair Bolsonaro. A dismorfia é um transtorno que leva a pessoa a ver no espelho uma feiura imaginária, defeitos que ninguém além dela mesma vê. O que o presidente Bolsonaro vê como “autodeterminação”, “altivez” e “ato de soberania” de um gigante diplomático adormecido até sua posse, não passa da pequenez da submissão aos interesses dos Estados Unidos. Ou melhor, do presidente Donald Trump.

Como tem sido há 28 anos, a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou por amplíssima maioria – 187 votos a 3 – o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba em 1962. Pela primeira vez na história, o Brasil votou com os Estados Unidos e Israel pela manutenção do embargo, quebrando, mais uma vez, a respeitável tradição diplomática do País. Desde 1992, quando foi apresentada a primeira proposta de resolução condenando o embargo à ilha caribenha, o Brasil vinha se posicionando a favor de sua aprovação.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, classificou o reposicionamento do Brasil como uma “quebra de paradigma”. “Nada nos solidariza com Cuba. O regime cubano, desde sua famigerada revolução há 60 anos, destruiu a liberdade de seu povo, executou milhares de pessoas, criou um sistema econômico de miséria e, não satisfeito, tentou exportar sua ‘revolução’ para a América Latina”, escreveu o chanceler no Twitter. Em seu discurso na ONU, em setembro, o presidente Jair Bolsonaro já havia tratado da necessidade de combater um “plano” urdido por Fidel Castro, Hugo Chávez e Lula da Silva para “estabelecer o socialismo em toda a América Latina”.

A questão não se restringe à “solidariedade com Cuba”, tendo a ver com uma posição altiva do Brasil contra um ato de força cometido unilateralmente por uma nação contra outra, sem a chancela da ONU. É por essa razão que o País tem se posicionado pela aprovação da resolução contra o embargo há tanto tempo, não pela aprovação tácita das arbitrariedades cometidas na ilha.

Não se discute que o regime castrista impôs severos danos ao povo cubano, que desde 1959 vive sem liberdade, privado de toda sorte de bens tangíveis e intangíveis. Mas se é assim há seis décadas, isso se deve em boa medida às consequências do próprio embargo econômico. Não à toa, o governo cubano nunca empreendeu grandes esforços para que a medida fosse suspensa. Sempre interessou aos irmãos Fidel e Raúl Castro manter vivo o temor do inimigo externo a fim de escamotear desmandos domésticos. Lembremos que partiu do ex-presidente Barack Obama a iniciativa de distender as relações entre Washington e Havana em 2014.

O fim do embargo econômico a Cuba, que só pode ser determinado pelo Congresso dos Estados Unidos, impõe-se por razões humanitárias e geopolíticas. O povo cubano já sofre há demasiado tempo, vítima da exploração de sua miséria para fins políticos tanto pelo regime castrista como por países como o Brasil. Alinhados ideologicamente, os governos do PT sempre relativizaram a truculência da ditadura caribenha em nome de uma suposta “luta anti-imperialismo”.

Como antípoda de Lula da Silva, Jair Bolsonaro deveria ser o primeiro a defender o fim do bloqueio para que, uma vez conhecendo as benesses da liberdade, o povo cubano pudesse repudiar com mais veemência a violência a que está submetido. Mas isso seria exigir demais, já que para tal o presidente brasileiro teria de pensar por conta própria, e não com a cabeça de Trump.

Incapaz de formular a sua própria política externa, tendo como norte o melhor interesse do País e nossa longa tradição diplomática, o presidente Jair Bolsonaro parece se contentar em deixar como marca de sua diplomacia a submissão quase absoluta aos interesses de seu contraparte norte-americano. No ano que vem será conhecido o próximo presidente dos Estados Unidos. A ver se a aposta foi bem feita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.