Distante da boa educação

Pouco menos de um terço da formação superior no Brasil é feito a distância, mas quase dois terços da formação de professores são a distância

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2019 | 03h00

É um truísmo dizer que a rede digital é uma ferramenta poderosa para ampliar e aprofundar a educação. Basta pensar no volume de dados que em uma geração se tornaram acessíveis a todos pela internet ou então nas possibilidades de interação a distância, especialmente em um país com as dimensões do Brasil, para quem está no interior ou tem poucos recursos para frequentar uma instituição de qualidade. É um ponto pacífico na fortuna crítica educacional, contudo, que, se o ensino a distância é um valioso complemento ao ensino presencial, jamais será um substituto. Não à toa a Lei de Diretrizes da Educação estabelece que “a formação inicial de profissionais do magistério dará preferência ao ensino presencial, subsidiariamente fazendo uso de recursos e tecnologias de educação a distância”. Ocorre que, na prática, tem havido o inverso: o ensino a distância vem se tornando o modelo principal, e o presencial, subsidiário, e, pior, de modo desproporcionalmente intenso justamente nos cursos de formação de professores. É o que revela um estudo do Todos pela Educação.

Nos últimos anos o número de ingressantes nos cursos de formação inicial de professores tem aumentado consideravelmente, sobretudo em razão dos cursos a distância oferecidos pela rede privada. Entre 2010 e 2017, as matrículas em cursos voltados à docência aumentaram 44%. Considerando-se apenas a rede privada, esse aumento foi de 162%. Das graduações voltadas à docência na rede privada, 29% eram a distância em 2010. Em 2017 chegaram a 53%. Nas redes privadas e públicas tomadas em conjunto, essa variação foi de 34% para 61%. Já para todos os demais cursos, a variação foi de 13% para 27%. Em outras palavras, pouco menos de um terço da formação superior no Brasil é feito a distância, mas quase dois terços da formação de professores são a distância. Essa magnitude não tem paralelo nem entre os países mais desenvolvidos nem entre os países em desenvolvimento com bons índices educacionais.

A profissão docente é essencialmente prática. Segundo o Todos pela Educação, com base em sólidas evidências, um curso de formação de professores deve se articular em três tipos de conhecimentos: (i) sobre os alunos e como se desenvolvem em diferentes contextos; (ii) sobre o que deve ser ensinado; e (iii) sobre como ensinar. Cursos centrados em aulas expositivas, como o são inevitavelmente nas modalidades a distância, na melhor das hipóteses podem comunicar o conteúdo a ser ensinado, mas não desenvolvem o elemento central: o ato de ensinar.

Por essa razão, nos sistemas nacionais com alto desempenho no Pisa, o mais reputado índice global de educação, a formação dos professores é feita em grande articulação com as escolas, tendo as vivências práticas como elemento central. O êxito dessa formação depende da colaboração entre os futuros professores, assim como de experiências formativas em sala de aula. Por isso, é importante que ela seja prioritariamente presencial.

Corroborando essa constatação, o Todos pela Educação agrega dados que comprovam o pior desempenho de alunos dos cursos de ensino a distância. O porcentual de alunos com notas brutas inferiores a 50 no Enade é de 75% para alunos de cursos a distância. Para os cursos presenciais, é de 65%. A chance de um aluno de Pedagogia a distância estar no grupo das melhores notas do Enade é de 21%. Para um aluno presencial, é de 30%. Em todos os demais indicadores, os cursos a distância têm desempenho pior, mesmo considerando alunos de perfis socioeconômicos semelhantes.

Por isso o Todos pela Educação afirma, com base em evidências irrefutáveis, que “o caminho que está sendo seguido pelo Brasil vai na contramão do que se percebe nos sistemas educacionais mais avançados, onde a formação prática é o elemento central da formação inicial de professores”. Assim, a proliferação do ensino a distância deve respeitar critérios qualitativos e ser contrabalançada pelo fomento aos cursos presenciais. Somente dessa maneira esse modelo educacional se justificará.

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