Distinguir para cooperar

Na relação com a China, cada nação deve sopesar rotineiramente interesses econômicos e políticos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2020 | 03h00

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, instou as democracias liberais a confrontar “a intimidação e a coerção” do Partido Comunista chinês. “A ascensão da China está mudando o equilíbrio global de poder, aquecendo a corrida pela supremacia econômica e tecnológica e aumentando a competição sobre nossos valores e estilo de vida.”

Seja para desviar a atenção de suas falhas e mentiras em relação à pandemia, seja para amainar as inquietações domésticas com a primeira contração econômica em décadas, o regime comunista tem aproveitado a confusão nos países ocidentais - intensificada pelo surto de protestos deflagrado nos EUA - para promover políticas cada vez mais agressivas. Uma nova lei de segurança está a ponto de esmagar as liberdades civis em Hong Kong, ao mesmo tempo que Taiwan é intimidada por uma combinação de retórica nacionalista e manobras militares. Milhares de soldados chineses confrontaram tropas indianas nas fronteiras do Himalaia, enquanto hostilidades navais no Pacífico acirram atritos com o Vietnã e a Malásia.

Em alguns aspectos a China já é a maior economia do mundo. Sua Marinha tem mais navios e submarinos que a dos EUA. “Eles estão mais perto de nós no espaço cibernético, os vemos no Ártico, na África e investindo em nossa infraestrutura crítica”, disse Stoltenberg. “E estão trabalhando cada vez mais com a Rússia.” As máquinas de propaganda bombardeiam a população nacional com slogans chauvinistas e a internacional, com fake news. O filme Lobo Guerreiro 2 - a maior bilheteria da história da China - narra o triunfo de soldados chineses sobre mercenários americanos. “Qualquer um que insulte a China”, diz seu pôster promocional, “deve ser exterminado.” As nações que questionam sua atuação na pandemia são retaliadas por seus diplomatas “lobos guerreiros” com insultos e ameaças de boicote, como o que impuseram à Austrália.

No ano passado, a União Europeia classificou a China como um “rival sistêmico”, e crescem as apreensões com a dependência da produção chinesa e o modo como o Partido se vale de seu capitalismo de Estado para buscar supremacia tecnológica e industrial. A relação com os EUA está a ponto de colapsar sob disputas cada vez mais acirradas que envolvem desde investimentos, comércio e tecnologia a segurança, origem do vírus e busca pela cura.

Mas nenhum país deveria se sentir obrigado a optar entre se ajoelhar ante o regime de Xi Jinping e se entregar às aventuras unilateralistas de Donald Trump. É preciso evitar as duas opções. Tal como o bloco europeu vem fazendo, cada nação precisa articular uma estratégia realista - calcada tanto na boa vontade para com o povo da China como na desconfiança em relação ao seu governo autoritário - que permita sopesar rotineiramente interesses econômicos e políticos.

Assim como a China tem o direito de competir no mercado internacional, as nações ocidentais têm o direito de demandar acesso recíproco aos mercados chineses. A internacionalização da economia chinesa - a “menos livre” do mundo, segundo o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation - impõe o desafio de repensar ferramentas para corrigir distorções no livre mercado global causadas por empresas estatais ou subsidiadas.

As relações com a China não são nem serão confortáveis. É tão pernicioso tratá-la como “inimiga” quanto é ingênuo tratá-la como “amiga”. Junto a uma competição econômica sadia, a comunidade global deve buscar todas as oportunidades de cooperação com a China em fins comuns, como a preservação ambiental ou a segurança sanitária. Mas as democracias liberais precisam estar prontas a não transigir em sua crença na dignidade humana e nos direitos individuais. Em respeito a esta fé, ao povo chinês e aos interesses nacionais, é preciso evitar responder na mesma moeda - como tem feito Trump - à estratégia do Partido Comunista de “dividir para conquistar”. Tanto a solidariedade global quanto as razões de Estado indicam que a atitude correta é “distinguir” - entre interesses econômicos e políticos - “para cooperar”.

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