Distorções de um país fechado

Além de dificultar a integração do País nas cadeias globais de valor e sustentar setores econômicos pouco produtivos, o protecionismo gera custos diretos para o consumidor brasileiro

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2019 | 03h00

Uma das propostas da equipe econômica do governo Bolsonaro é uma maior abertura econômica e comercial do País. De fato, o Brasil é um dos países mais fechados do mundo, com uma série de restrições tributárias e burocráticas que produzem grandes distorções comerciais. Recentemente, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ao descrever o panorama econômico do País para alunos da Wharton School, destacou como primeiro elemento o fato de o Brasil ter uma grande economia fechada. Além de dificultar a integração do País nas cadeias globais de valor e sustentar setores econômicos pouco produtivos, tal protecionismo gera custos diretos para o consumidor brasileiro.

Um levantamento dos preços dos produtos da Apple praticados em 37 países indica que o Brasil é sempre o local mais caro para comprar algum equipamento eletrônico da empresa americana. Feito pelo site The Mac Index, o estudo pode ser um bom comparativo entre os países, tendo em vista que os produtos Apple têm alcance global.

Na Austrália, um tablet iPad Pro, com tela de 12.9 polegadas e memória de 256 GB, custa 1.969 dólares australianos, equivalentes a R$ 5.260. Trata-se do local com preço mais acessível entre os 37 países participantes da pesquisa. Outros 35 países – entre eles Estados Unidos, China, Japão, México, Alemanha, Bélgica, Portugal e Turquia – têm preços equivalentes a até R$ 6 mil. No Brasil, o mesmo tablet custa R$ 10.799.

O melhor preço do celular iPhone XS, com memória de 256 GB, é cobrado no Japão, onde custa 129.800 ienes (R$ 4.450). Nos outros 35 países, esse modelo do iPhone custa menos de R$ 6 mil. Ou seja, as realidades alfandegárias daqueles países dão a seus consumidores, indivíduos ou empresas, condições de compra muito similares. No Brasil, o iPhone XS de 256 GB custa R$ 8.099.

Outro produto da Apple de uso muito difundido são seus computadores portáteis. O MacBook Air, com processador de 1.6 GHz e memória de 128 GB, tem seu menor preço em Hong Kong, onde custa 9.499 dólares de Hong Kong (HKD), equivalentes a R$ 4.500. Na outra ponta da tabela, como o país com o segundo preço mais caro, está a Nova Zelândia, onde esse modelo de laptop custa 2.149 dólares neozelandeses (NZD), equivalentes a R$ 5.460. Entre o país mais barato e o 36.º, tem-se uma diferença de preço de 21,3%. No Brasil, em 37.º lugar, o mesmo produto custa R$ 10.399.

A distorção se repete nos preços dos outros produtos da empresa americana. O levantamento evidencia que o consumidor brasileiro está em enorme desvantagem em relação aos seus pares internacionais. Para ter o mesmo equipamento, seja para uso próprio ou para uso no seu negócio, o brasileiro precisa gastar muito mais. É difícil, para não dizer impossível, competir nessas condições.

Tais desequilíbrios não estão restritos à área de equipamentos eletrônicos. Nota-se grande distorção em muitos outros setores da economia, como alimentício, têxtil e automotivo. É uma realidade tão conhecida que vai se perpetuando ao longo do tempo e sendo encarada como algo normal. Não tem por que ser assim. A meta de abrir a economia é uma das condições para o País ganhar competitividade e deve ser parte de um plano de aumento geral de eficiência. Juntamente com a abertura do mercado, é necessário fazer uma reforma tributária que facilite o investimento, barateie a produção e aumente o potencial de crescimento econômico.

No começo dos anos 1990, o Brasil passou por uma experiência importante de liberalização do mercado nacional. Foi dolorosa para muitos setores, mas, de forma geral, teve resultados muito positivos, que são sentidos ainda hoje. Será muito benéfico para o País se o governo federal conseguir de fato realizar um novo e amplo movimento de abertura da economia. O protecionismo atual não atende ao interesse nacional.

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