Dois candidatos, muitas diferenças

Donald Trump e Joe Biden representam modos distintos de tratar a democracia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 03h00

O Partido Republicano e o Democrata oficializaram seus candidatos à presidência dos Estados Unidos para as eleições de novembro. As candidaturas de Donald Trump e Joe Biden não apenas trazem propostas políticas diferentes para os EUA, mas representam modos distintos de tratar a democracia e a própria cidadania. Os discursos de encerramento das duas convenções partidárias ilustraram essa disparidade, mostrando o que será decidido nas próximas eleições americanas.

A mensagem central do discurso de Joe Biden foi a promessa de unir os EUA. “Embora eu seja um candidato democrata, serei um presidente americano”, disse, afirmando que, se for eleito, trabalhará para todos os eleitores, tenham ou não votado nele. “Muita raiva, muito medo e muita divisão”, disse Biden a respeito do atual governo.

Em seu discurso, Joe Biden disse que os EUA enfrentam atualmente quatro crises históricas – a recessão econômica, a pandemia de covid-19, o clamor por justiça social e as mudanças climáticas. “É uma tempestade perfeita”, disse. Ao mesmo tempo, o candidato democrata afirmou que o atual governo tem estado muito aquém desses desafios. Citou, como exemplo, a falta de planejamento para enfrentar a covid-19, acusando Trump de ter falhado em sua obrigação mais básica como presidente dos EUA, a de proteger os americanos da doença. O país tem 5,8 milhões de infectados e 180 mil mortos em decorrência do vírus.

A respeito da questão racial – que ganhou especial repercussão desde o assassinato de George Floyd, no final de maio, por um policial –, Biden falou da “mancha do racismo” em “nosso caráter nacional”. Uma das propostas do candidato democrata é a realização de uma reforma do sistema de justiça, com o objetivo de reduzir o número de pessoas encarceradas e eliminar disparidades em função de raça e de gênero.

Na questão ambiental, Biden assumiu o compromisso de desenvolver uma economia de energia limpa, também como oportunidade de crescimento econômico e de geração de empregos. Uma das medidas anunciadas é o retorno dos EUA ao Acordo do Clima de Paris, denunciado pelo atual governo em 2017.

Por sua vez, o presidente republicano Trump parece dobrar a aposta no conflito, na desinformação e no medo. Se em 2016 Donald Trump chegou à presidência dos EUA prometendo deportar todos os imigrantes ilegais e construir um muro na fronteira com o México, agora ele apresenta Joe Biden como ameaça nacional. “Biden não é o salvador da alma americana, ele é o destruidor dos empregos americanos, com o risco de ser o destruidor da grandeza americana”, disse Trump no discurso de encerramento da convenção do Partido Republicano.

Em sua fala, Trump recorreu à desinformação. Disse, por exemplo, que, se a oposição ganhar as eleições, o governo vai tirar recursos da polícia, demolir os subúrbios, confiscar armas e nomear juízes que não respeitarão as liberdades constitucionais. “Essa eleição vai decidir se salvamos o sonho americano ou se deixamos uma agenda socialista demolir nosso querido destino”, disse Trump. Assegurou ainda uma vacina contra o coronavírus até o fim do ano “ou antes”.

Diante das campanhas e das duas plataformas, é evidente que se pode apontar inconsistências e fragilidades nas propostas de Joe Biden, que está longe de ser um candidato perfeito. No entanto, há uma diferença fundamental a distinguir as duas candidaturas – a postura em relação à política. Donald Trump trata o adversário como um inimigo a ser abatido com mentiras e distorções. Essa falta de compromisso com a realidade é uma ofensa à democracia. O eleitor deve ser convencido, e não enganado.

É uma pena que o Partido Republicano, com tão rica história em defesa das liberdades e da democracia, esteja enredado nesse amesquinhamento da política e da vida pública promovido por Donald Trump. Não por outra razão, importantes lideranças republicanas manifestaram apoio a Joe Biden. Mais do que abraçar as propostas democratas, tal atitude é uma defesa da civilidade e da democracia. Numa eleição, há pontos inegociáveis. O respeito ao cidadão é um deles.

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