Dólares suficientes, apesar do governo

Agronegócio sustenta setor externo, contra erros ambientais e diplomacia insensata

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 03h00

Boa notícia, mas nem tanto, o superávit de US$ 2,23 bilhões nas contas externas de junho reflete principalmente a crise do coronavírus, com muita insegurança, consumo deprimido, menos viagens para fora e menor remessa de lucros e dividendos. O resultado de um ano antes havia sido um saldo negativo de US$ 2,66 bilhões. A economia já andava mal, com o governo indiferente ao desemprego, mas ainda se movia na superfície. Nem essa medíocre normalidade sobrou em 2020. Desde o grande choque de abril, o País completou três meses de saldos positivos nas transações correntes, uma raridade. O semestre terminou com um déficit de US$ 9,73 bilhões, menos de metade do buraco de US$ 21 bilhões contabilizado de janeiro a junho de 2019.

O superávit comercial de US$ 19,33 bilhões acumulado em seis meses, 13,77% menor que o de um ano antes, ainda foi um sinal de normalidade, apesar de erros do governo. A balança comercial, o maior item das transações correntes, fica geralmente no azul. Seu saldo positivo compensa parcialmente os déficits das contas de serviços e rendas. Com isso o resultado conjunto, embora negativo, se mantém facilmente financiável com investimento direto estrangeiro.

Com milhões de famílias em quarentena, negócios em marcha lenta e demanda contida, em junho as importações de mercadorias foram 19,07% menores que as de um ano antes. Na comparação semestral, a redução foi de 4,95%. As exportações também caíram, derrubadas pela crise global e principalmente pela recessão na Argentina e em outros vizinhos. A receita de junho foi 2,34% inferior à de um ano antes. No confronto entre os primeiros semestres, o faturamento deste ano ficou 6,75% abaixo do obtido no ano anterior.

A China e o agronegócio foram essenciais, como têm sido há anos, para manter superavitário o comércio de mercadorias. Comprando principalmente produtos agropecuários, minério e petróleo, o mercado chinês garantiu cerca de um terço dos US$ 102,18 bilhões faturados por exportadores brasileiros.

Chineses continuaram sendo, também, os principais clientes do agronegócio e absorveram US$ 20,47 bilhões, ou 39,64% dos US$ 51,63 bilhões exportados pelo setor no primeiro semestre. Com compras no valor de US$ 8,43 bilhões, também a União Europeia se manteve como importante compradora de alimentos e matérias-primas originários da agropecuária brasileira. Essas vendas ocorreram apesar de erros graves cometidos pelo presidente Bolsonaro, por gente de sua família e por seus ministros: grosserias contra a China e uma política desastrosa para as florestas e para a reputação do agronegócio.

O último desses erros foi o alinhamento aos Estados Unidos, na Organização Mundial do Comércio (OMC), num movimento de pressão contra a China. Os governos americano e brasileiro cobraram da entidade uma posição mais dura contra países com economias fora do padrão de mercado.

Tratava-se obviamente da economia chinesa e a pressão era mais um episódio do conflito comercial e tecnológico entre Estados Unidos e China. Tomar partido nesse confronto é um erro evidente, como ressaltam economistas, diplomatas e líderes empresariais, até porque o agronegócio americano concorre com o brasileiro na disputa pelo mercado chinês. Mas o presidente parece incapaz de perceber esses fatos.

Apesar de repetidos erros do governo, o agronegócio continua com presença vigorosa no mercado global, graças, em grande parte, ao empenho da ministra da Agricultura. Além disso, o ingresso de investimento direto estrangeiro, embora declinante desde o ano passado, permanece mais que suficiente para as necessidades das contas externas. Os US$ 71,68 bilhões recebidos em 12 meses cobriram com muita folga o déficit de US$ 38,19 bilhões acumulado em transações correntes nesse período. Há muito dinheiro disponível no mundo, o real desvalorizou-se amplamente neste ano e está barato investir no Brasil. Com reservas de US$ 348,78 bilhões, mantém-se a segurança externa, hoje ameaçada principalmente pela insensatez ambiental e diplomática.

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