É preciso convicção

Ao presidente Jair Bolsonaro parece faltar convicção sobre a proposta de reforma da Previdência que ele mesmo encaminhou ao Congresso

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 03h00

Ao presidente Jair Bolsonaro parece faltar convicção sobre a proposta de reforma da Previdência que ele mesmo encaminhou ao Congresso. Em pronunciamento na terça-feira passada, Bolsonaro disse não ter “a menor dúvida” de que “o Parlamento fará as correções” e que “essa proposta tem que ser aperfeiçoada”. Ora, se o presidente considera que o projeto precisa de correções, pode-se presumir que ele não concorda integralmente com a versão que apresentou ao Congresso. Sendo assim, é natural que os parlamentares considerem possível negociar todas e cada uma das linhas da proposta, o que é evidentemente uma temeridade. Afinal, uma reforma esquálida apenas adiaria por pouco tempo o colapso do sistema e das contas públicas, o que demandaria em breve outra reforma. E não é possível mobilizar a agenda nacional com um único tema por tanto tempo.

Jair Bolsonaro precisa se convencer de que não é apenas mais um deputado, com responsabilidade limitada sobre os projetos encaminhados pelo governo ao Congresso. Também precisa se convencer de que já não é mais um candidato a presidente da República, condição que lhe permitia abordar com ligeireza eleitoreira os grandes temas nacionais. Como presidente, precisa ser o primeiro a acreditar, sem reticências, naquilo que seu governo pretende defender no Congresso, em especial quando está em jogo a governabilidade.

Parlamentares costumam farejar governos hesitantes, como tem sido o de Bolsonaro, para deles exigir tudo. Mesmo um presidente hábil como Michel Temer teve enormes dificuldades para arregimentar apoio à reforma quando seu governo se viu enfraquecido depois das denúncias feitas contra ele pela Procuradoria-Geral da República. Até agora, não há razão para crer que Bolsonaro terá sucesso onde seu antecessor fracassou, sobretudo diante da sua falta de envolvimento pessoal na articulação política e mesmo na batalha comunicacional para defender a reforma.

“O problema é que o presidente está refém do discurso dele de campanha”, disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sugerindo que o governo parece convencido de que as mudanças radicais prometidas por Bolsonaro nos palanques serão aprovadas apenas porque o presidente e seus eleitores desejam e sem nenhum outro tipo de esforço. Não é, obviamente, tão simples, mas é assim que o presidente parece pensar, ao dizer que conta com o “patriotismo” dos parlamentares para reformar a Previdência.

Não se trata de “patriotismo”, mas de política. “Não tem velha e nova política, tem a política”, afirmou Rodrigo Maia, ressaltando a necessidade de formar uma base forte para aprovar uma reforma tão impopular. Maia lembrou que o governo “tem o PSL na base e não tem mais nenhum partido”. Segundo o presidente da Câmara, o governo teria de “trazer uns 10, 12 partidos para a base para ter musculatura”.

O problema começa por Bolsonaro, que na campanha eleitoral atacava a reforma da Previdência. O presidente já disse que isso foi um “erro”, mas seu alegado arrependimento até agora foi insuficiente para convencer os parlamentares de que Bolsonaro está disposto a dividir com eles o ônus político da reforma. Um sintoma da hesitação de Bolsonaro está no fato de que ele mal fala da reforma nas redes sociais, veículo que os bolsonaristas consideram ideal para mobilizar a sociedade. Cobrado por deputados, Bolsonaro prometeu maior engajamento na comunicação em defesa da reforma e disse que será ajudado por seu filho Carlos – o mesmo que provocou a demissão de um ministro pelo Twitter. E Carlos, que não tem cargo no governo e é apenas um vereador carioca, não decepcionou: já causou mal-estar entre os parlamentares ao cobrar pelo Twitter que os deputados eleitos na onda bolsonarista defendam a reforma. Quem resumiu a saia-justa foi o líder do DEM na Câmara, Elmar Nascimento (BA): “Eu não vejo autoridade no filho do presidente para dar pito nem mesmo nos seus companheiros vereadores, quanto mais em deputado federal”

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