É preciso vacinar nossas crianças

Às chamadas autoridades cabe realizar um acurado diagnóstico das razões que têm levado pais a deixarem de vacinar os seus filhos nos últimos anos

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 03h30

Oficialmente, terminou no dia 30 de outubro a Campanha Nacional de Vacinação contra a poliomielite, mas muitos Estados, inclusive São Paulo, estenderam o prazo diante do baixo comparecimento dos pais aos postos de saúde. O objetivo do Ministério da Saúde era imunizar 11,2 milhões de crianças de 1 a 5 anos contra a pólio neste ano, mas, de acordo com balanço divulgado pela pasta, apenas 4,9 milhões de crianças foram vacinadas (44%). É desolador constatar que 6,3 milhões de crianças ainda estão sujeitas a contrair uma grave doença que há 30 anos havia sido erradicada no Brasil.

O Amapá foi o Estado que registrou o maior porcentual de vacinação contra a pólio na campanha deste ano (76,4%), seguido por Pernambuco (64%) e Paraíba (61%). São números muito baixos – e perigosos – mesmo para os Estados que estão no topo do ranking. Com 17,3% de suas crianças vacinadas, Rondônia foi o Estado com o menor índice de cobertura do País. Em São Paulo, onde a campanha de vacinação foi estendida até o dia 13 de novembro, registraram-se apenas 39,6% de adesão, restando 1,3 milhão de crianças até 5 anos a serem vacinadas.

Em setembro, o Estado revelou que os atuais índices de cobertura de vacinas obrigatórias no País são os menores dos últimos 20 anos, algo absolutamente incompreensível à luz da razão. O Brasil é reconhecidamente uma referência mundial em fabricação e distribuição de vacinas. Os imunizantes aqui produzidos pelo Instituto Butantan, em São Paulo, e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, são seguros e eficazes contra dezenas de doenças. Por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), são distribuídos gratuitamente cerca de 300 milhões de doses de vacinas todos os anos.

Há cinco anos, 95% das crianças brasileiras estavam imunes à pólio. Em 2016, esse porcentual caiu para 84,4%. Em 2017, o número caiu novamente para 83,4%. A tendência é de queda. O mesmo ocorre em relação à vacinação contra outras doenças, como o sarampo, que voltou ao País em 2018.

O que explica essa procura por vacinas abaixo dos patamares recomendados pelas autoridades sanitárias? O fracasso, pode-se classificar assim, da Campanha Nacional de Vacinação de 2020 pode ser fruto do receio dos pais em sair de casa com seus filhos em meio à pandemia de covid-19, evitando ambientes hospitalares. Mas, como os números atestam, há uma tendência que deve ser prontamente revertida para que o País não tenha de voltar a lidar com mazelas que ficaram no passado e lá deveriam permanecer. É inconcebível a Nação estar às voltas com surtos de poliomielite, sarampo, caxumba e rubéola no final da segunda década do século 21 – e é isso o que acontecerá se a sociedade rejeitar a cobertura vacinal.

Às chamadas autoridades cabe realizar um acurado diagnóstico das razões que têm levado pais a deixarem de vacinar os seus filhos nos últimos anos e desenvolver estratégias para reverter essa tendência daninha. Deveria bastar o bom senso de pais e responsáveis, mas à falta dele se impõe uma ação estatal mais incisiva para esclarecer a população e facilitar o acesso aos imunizantes. As escolas também têm papel fundamental nesse processo, mais do que simplesmente alertando pais e alunos sobre a importância da vacinação, o que é óbvio, mas realizando suas próprias campanhas internas, como tradicionalmente sempre fizeram.

Em São Paulo, é esperado que até o final da campanha, em meados de novembro, 95% dos 2,2 milhões de crianças do Estado sejam vacinadas contra a pólio. É perfeitamente possível que a meta seja atingida, mas isso exigirá uma tomada de consciência dos pais.

Estrutura segura para a aplicação das vacinas existe. “É de extrema importância aumentar a cobertura vacinal contra poliomielite, além de atualizar a carteira de vacinação de nossas crianças, contribuindo para eliminarmos os riscos de circulação dessa e de outras doenças”, disse o secretário de Saúde paulista, Jean Gorinchteyn.

Contra a insensatez de pais que não vacinam seus filhos por crendices não há vacina. Aos demais, um apelo ao bom senso: vacinas salvam vidas.

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