Economia sem qualidade

Têm-se observado, em muitas economias do mundo, ganhos de produtividade em períodos de crise. Também nesse ponto o Brasil tem destoado

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 03h00

O tombo da economia foi mais feio no primeiro trimestre do que mostram os grandes números da produção. O cenário fica pior quando se observam dois detalhes especialmente sombrios – o drama de 20,2 milhões em busca de emprego ou de oportunidades melhores e a perda de qualidade do trabalho. O dado mais amplo desse fiasco econômico já era conhecido. Entre janeiro e março o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,2% menor que nos três meses finais de 2018. O País se moveu no sentido oposto àquele previsto por muitos empresários e consumidores depois da eleição presidencial. Mas, além disso, a mão de obra ainda ocupada produziu menos do que em outras ocasiões. Nos quatro trimestres encerrados em março deste ano caiu 0,3% a produtividade geral do trabalho, medida pela quantidade de produto gerado em cada hora de atividade.

Esse número resume as condições de eficiência dos três grandes setores, a agropecuária, a indústria e os serviços. Os cálculos são da Fundação Getúlio Vargas (FGV). No quarto trimestre do ano passado o mesmo tipo de comparação mostrou uma queda de 0,1%. Essa é mais uma confirmação do enfraquecimento da economia brasileira nos três meses iniciais deste ano – e do governo do presidente Jair Bolsonaro. O enfraquecimento, nesse caso, tem um evidente componente qualitativo.

Vem de longe, no entanto, a perda de produtividade geral do trabalho. O estudo examina a variação do produto por hora de atividade em 22 períodos anuais, desde 2013, tomando sempre como referência um conjunto de quatro trimestres. Em 13 desses períodos a variação foi negativa. Mas o quadro fica mais claro quando se consideram separadamente os três grandes setores, com linhas de evolução consideravelmente distintas.

O balanço geral evidencia, sem surpresa, a produtividade maior da agropecuária, o setor mais competitivo da economia brasileira. Em 19 dos 22 períodos houve ganhos de eficiência no campo. Em 8, os ganhos superaram 10%. Não por acaso o agronegócio tem dado a maior contribuição para o superávit comercial do Brasil e, como consequência, para a solidez das contas externas.

Nos piores momentos dos últimos anos, o poder de competição internacional desse setor protegeu o País de uma crise cambial, isto é, de um quadro desastroso de escassez de dólares. Outras economias emergentes tiveram desempenho bem pior nesse quesito.

No caso da indústria, a série de números mostra resultados negativos em 8 dos 22 períodos. Mas a perda de qualidade – com produtividade em queda ou em crescimento pífio – é observável pelo menos desde os quatro trimestres encerrados no primeiro de 2014. Entre os trimestres encerrados no terceiro de 2014 e o segundo de 2016 os números são sempre negativos. Essa fase começa um ano antes da recessão geral da economia brasileira, iniciada em 2015, e termina no meio de 2016. Ganhos de eficiência da mão de obra ocorrem em todos os períodos seguintes, mas quase sempre muito modestos, até a modestíssima taxa de 0,6% observada nos quatro trimestres encerrados no primeiro de 2019.

Baixo investimento, escassa inovação, pouco treinamento e muita insegurança na definição de planos explicam, provavelmente, a estagnação da produtividade do trabalho no setor industrial.

O pior cenário é, de longe, o dos serviços. As comparações anuais mostram resultado nulo em um ano e variações negativas em 19. Esses dados contaminaram o conjunto e reforçam a imagem dos serviços como o setor menos eficiente e menos desenvolvido do País. A informalidade é um componente importante desse quadro. Os serviços têm grande peso estatístico na composição da atividade geral, isto é, do PIB, mas poucos de seus segmentos têm dinamismo próprio e eficiência elevada.

Têm-se observado, em muitas economias, ganhos de produtividade em fases de crise: menos empregados trabalham mais duramente, até para manter sua posição. Também nisso o Brasil tem destoado. Por falhas da política, os empregadores têm sido, há anos, os primeiros a relaxar e descuidar da eficiência e da competitividade.

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