Educação e padrão de vida

Com 1% a mais do PIB gasto no setor, padrão de vida médio pode crescer 26% em 50 anos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2020 | 03h00

Depois de analisar o impacto dos investimentos no setor educacional entre 1933 e 1985, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) chegaram à conclusão de que, se o Brasil investir apenas 1% a mais, a cada ano, do seu Produto Interno Bruto (PIB) em ensino básico, o padrão de vida médio da população poderá aumentar até 26% nos próximos 50 anos. E, já em 2050, a população brasileira poderia atingir o mesmo padrão de vida da população portuguesa.

“A educação é um investimento de longo prazo, cujos efeitos sociais e econômicos se tornam um patrimônio da sociedade. Basta olhar para os exemplos da Suécia ou da Coreia do Sul, países que evoluíram apostando no investimento do ensino”, lembra Samuel Pessoa, pesquisador da FGV e um dos coautores desse estudo.

O trabalho parte da premissa de que os jovens são o principal ativo que o País possui. Ao analisar os gastos do País com educação entre as décadas de 1930 e 1980, os pesquisadores do Ibre constataram que a formação de capital humano a partir da oferta de educação primária não foi incluída nas estratégias de desenvolvimento. Durante esse período, que foi marcado por sucessivos ciclos de democracia e de autoritarismo, a educação básica foi negligenciada.

A universalização do ensino fundamental só foi assegurada na última década do século 20 e, mesmo assim, com um nível baixo de qualidade, como tem sido apontado pelos métodos nacionais e internacionais de avaliação de desempenho escolar. Da década de 1990 para cá, a política educacional foi reformulada várias vezes. Se de um lado o governo Fernando Henrique Cardoso institucionalizou a avaliação escolar, com o objetivo de coletar informações que fundamentassem a formulação de uma política educacional de médio e longo prazos, de outro os governos Lula e Dilma privilegiaram modismos pedagógicos e implementaram projetos caros, porém mal costurados, como o programa Ciência sem Fronteiras. E agora, nestes quase dois anos de governo Bolsonaro, o Ministério da Educação (MEC) entrou em estado letárgico, deixando de coordenar a reabertura das escolas de ensino fundamental e médio. Simplesmente eximiu-se de suas atribuições básicas ao longo de um ano letivo comprometido pela pandemia. 

Nos últimos anos, a política educacional mais bem-sucedida não foi formulada pela União, mas por uma unidade da Federação – o Ceará. Independentemente das trocas de governo, o Estado nordestino adotou a chamada política de alfabetização contínua e a manteve intocada ao longo do tempo. Não apenas investiu mais, como também se preocupou com a qualidade dos gastos no setor educacional. Desde então, o nível de desempenho em Língua Portuguesa dos alunos cearenses cresceu significativamente. E, em Matemática, são os que têm obtido as melhores notas nas avaliações nacionais. “Exemplos como o do Ceará devem ser aplicados em todo o País. Dá para imaginar que, nos próximos anos, os cearenses terão um surto de desenvolvimento resultante da educação, o que poderia estar ocorrendo também em outros Estados”, afirma Samuel Pessoa. 

Como ele, outros economistas da FGV apontam que investir na educação 2% do que o País produz a cada ano poderia elevar em quase 32% o aumento da produtividade. Apesar dos altos níveis de desemprego no País, as empresas alegam que, por causa da baixa qualificação média da população brasileira, não estão conseguindo preencher vagas que exigem qualificação profissional e competências específicas. Essa é a razão pela qual o Brasil até hoje não igualou a proeza da Coreia do Sul, que investiu em ensino básico e profissionalizante com o objetivo de dar um salto de desenvolvimento e, por consequência, de melhora do padrão de vida médio de sua população. 

Estudos como o da FGV são fundamentais para apontar os rumos que o País deve seguir para promover a revolução educacional. Mas é preciso que os governos saibam interpretar suas conclusões e agir com coerência e determinação, o que não é o caso, infelizmente, do governo Bolsonaro.

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